(15 de Janeiro de 2009, às 18 horas, Lisboa, Universidade Lusófona, Campo Grande, 380-B )
O autor deste blog lançará brevemente mais um romance sobre eventos e personagens da Angola anterior à Independência, para que convida todos os seus leitores. A esse propósito e com o fim de interessar quem possa e queira estar presente na sessão de apresentação do livro, inclui adiante os elementos seguintes:

Capa e contracapa ilustradas por Francisco Amorim
Excerto do romance
(pags.88-90, O Pecado Maior de Abel, Edições Colibri, Lisboa, Janeiro de 2009)
{Depois da caldeirada de cabrito, que foi comida até ao fim; de duas garrafas de tinto maduro do Douro, que foram servidas a acompanhar; já com a chávena de café de saco e o cálice de conhaque nas mãos, os dois levan-taram-se da mesa e dirigiram-se para a sala de estar.
Sentaram-se pesadamente nos cadeirões de verga que ficavam junto da janela, nesses mesmos que Guiomar do Patrocínio teimara comprar no Fun-chal seis meses antes, quando passara por lá no paquete «Império» de regresso da licença graciosa. Cadeirões enormes, de varas de vime enver-nizadas, que tinham inscritos no topo das costas o local e a data de fabrico.
Cada um puxou conversa, primeiro sobre o seu clube do coração, o Sport Lisboa e Benfica, que perdera de novo com o Sporting («Uma roubalheira do árbitro!, uma pouca vergonha!, uma indecência!»), a seguir sobre a situação política em Portugal, que continuava a enfrentar a vergonha da ONU estar-se a borrifar para a invasão dos enclaves indianos de Dadrá e Nagar-Aveli, orde-nada pelo Pandita Nehru. Oliveira Salazar protestara veementemente contra o facto, reclamara a soberania do país sobre os territórios ocupados, mas até ao momento, dois anos volvidos e apesar da insistência, nada!
Zeferino Antunes tinha uma opinião formada sobre o assunto. Quando se referia à ONU, a essa «corja», a essa «cambada», não poupava críticas:
— Aquilo é um coio de oportunistas, que quer é cair nas graças dos países-membros que acaba de acolher.
Perguntava como quem sabe já a resposta:
— Como é que um homem decente, com valores, de antes quebrar que torcer, como o nosso Presidente do Conselho, poderia alguma vez ser ouvido por tais mariolas? Sim, como?
Abel estava inteiramente de acordo. Dizia mais: que Sua Majestade Britânica, a rainha Dona Isabel, se portara como uma falsa, não apoiando a pretensão portuguesa e virando as costas ao mais antigo e fiel aliado.
— Foi ou não foi uma traição?
O Chefe do Posto achava que sim. Mas estava já a contar com isso. Olaré! Os ingleses eram reincidentes na patifaria:
— Lembre-se sempre de que esses sacanas nos tramaram com o Mapa Cor-de-Rosa.
Abel não se recordava do assunto. Nunca ouvira falar de tal coisa. Gostava de saber.
Zeferino Antunes explicou: com todos os detalhes, indo buscar um livro escrito sobre o acontecimento, «Portugal e o Ultimato». Abriu na página que tinha assinalada com uma tira de papel lustroso, leu o texto, fez comentários. Perguntou no fim:
— Que tal? Não era como eu dizia?
Abel ficou de cara à banda. Na verdade, aqueles gajos eram uns refi-nadíssimos tratantes, uns grandessíssimos aproveitadores. Filhos da mãe!
Um sipaio bateu à porta, pedindo licença para entrar na sala. Vinha in-formar que um soba estava lá fora, à espera, para resolver uma andaca pen-dente.
— Sô Chefe vem? O home espera ou manda imbora?
Zeferino Antunes olhou para o relógio de pulso. Caramba!, o tempo voava.
— Ele que espere. Eu vou já.
Abel levantou-se. Escorropichou ainda a chávena de café, agradeceu o repasto, pediu para apresentar as suas recomendações a Guiomar do Patro-cínio:
— Transmita à sua patroa os meus respeitos.
De novo cá fora, entrou na carrinha, deu ao arranque, olhou o Chefe do Posto pela última vez:
— Obrigado por tudo. Um dia destes, volto.
Pôs as mãos no volante, acomodou-se melhor no assento e partiu.
Ia já a meio caminho e continuava com o Mapa Cor-de-Rosa na cabeça: «Filhos da mãe dos ingleses! Uns estupores de primeira!...».}
http://huambino.blogs.sapo.pt/2009/01/07/