FóRUM ELOS DIALOGA - AVIVANDO O DIáLOGO SOBRE A INCULTURAçãO NA IGREJA CATóLICA
Nossos diálogos visam desafiar o interesse pelas pátrias de língua portuguesa " reais " em que vivemos.
E responder às perguntas: P orque somos assim ? E o que é ser assim ?
Os diálogos constroem amizades, não importando qual a latitude em que se encontram os correspondentes.
As suas palavras serão bem vindas. Não basta ler.
Escreva para nós.
No fórum Elos os temas prioritários são a história dos povos , a língua , os falares , as heranças culturais, a genealogia e a cidadania dos povos lusófonos.
“ Benditos os provocadores que por eles se constrói o reino da razão e da inteligência .” Abdul Cadre, 08.01.05
E sta Edição é dedicada aos diálogos promovidos, a partir de Goa, antiga Índia P ortuguesa, no grupo br.groups.yahoo.com/group/comunidade_lusofona/
E o assunto: «Igreja da Ásia : Avivando o diálogo sobre a Inculturação / Aculturação na Igreja Católica em Goa»
P articipam: os P adres Thomas Justus de Souza(Goa) e Vasco do Rego (Goa) introduzidos pelo Eng. Fernando Rego (Goa) ..
E o P rof. P adre Teotónio de Souza, da Universidade Lusófona P ortugal, que responde ao P adre Rego.
&&& &&& &&&
Fernando Rego (Goa ) escreve e envia texto do P adre Thomas Justus (de Souza) (Goa) 27.03.05
Caros amigos, Meus votos para que cada um dos recipientes tenha uma P áscoa Feliz, abençoada pelo Jesus Ressuscitado.
Neste diálogo, tentamos ter várias opiniões sobre a inculturação. Antes de o encerrar, seria útil saber qual a opinião da nossa Arquidiocese de Goa. P or isso, transcrevo, quase na íntegra, um artigo que veio na revista ‘RENOVACAO/ Renewal/ novsarni) ,seu orgão oficial. ( no.5.Vol. XXXIV, Marco-2005) escrito pelo P adre Thomas Justus (de Souza): “INCULTURATION”. Ele vai aqui em português, em tradução gentilmente feita, a meu pedido, por Oscar de Noronha, de P angim, favor este que lhe agradeço.
Fernando do Rego.
&&&
P adre Thomas Justus (de Souza): escreve sobre INCULTURAÇÃO
A cultura é um elemento essencial ao ser humano. A relação entre este e a cultura é como a de peixe para a água. Tal como o peixe não pode viver senão na água, também um ser civilizado não o pode fazer sem o seu médium cultural. É por isso que, quando Deus se fez Homem na pessoa de Jesus Cristo, sendo Ele uma criança indefesa, sem mecanismo herdado que o guiasse no seu comportamento, foi preciso que o ensinassem a fazê-lo dentro da tradição cultural do povo judaico. A Boa Nova da Salvação que Ele proclamou à humanidade, pregou-a pelo médium cultural judaico, a que estava sujeito em virtude do seu nascimento. A razão fundamental para a INCULTURAÇÃO foi a sua INCARNAÇÃO. E é por isso que a igreja local tem o direito e a responsabilidade de corresponder à Boa Nova por meio da sua cultura local.
A palavra “inculturação” foi tomada da antropologia cultural, em que o termo “enculturação” se refere ao processo pelo qual o indivíduo adquire a sua cultura e participa dela. Um missiólogo cristão cunhou o termo, por volta dos anos 70, para expressar o processo pelo qual a Boa Nova vem a fazer parte do povo que a recebe. O termo é preferível à ‘adaptação', ‘acomodação', ‘indigenização' e ‘contextualização', porque, enquanto estes termos sugerem que a Igreja é um ‘agente' externo, “inculturação” encara a Igreja como agente nato duma determinada cultura, donde provém a creatividade cultural duma certa comunidade no contexto da História Salvífica.
Após o Vaticano II, a Igreja tem vindo a corresponder à necessidade de haver sensibilidade cultural na pregação da Boa Nova às Gentes. P elo processo de inculturação, a Igreja torna-se parte integrante da cultura do povo, e a vida cristã fica integrada e expressa em símbolos da cultura local.
O processo de inculturação deve assumir a natureza dinámica da cultura, que nunca é estática, mas adapta-se a todas as situações. No mundo de hoje, vêem-se dois importantes processos culturais a desenrolarem-se simultaneamente: por um lado, graças à explosão da informação, as culturas ficam todas elas mutuamente expostas, vindo a criar uma cultura universal. É por isso que, hoje, a inculturação deve realizar-se no contexto de realidades tanto universais como particulares. É preciso tomar em conta essas duas realidades da igreja local e da universal. Os símbolos a usar devem reflectir esta comunhão.
“O cristianismo do terceiro milénio,” diz o P apa, na Novo Millenio Enuente (Nº 40), “deverá responder cada vez melhor a esta exigência de inculturação. P ermanecendo o que é, na fidelidade total ao anúncio evangélico e à tradição eclesial, o cristianismo assumirá também o rosto das diversas culturas e dos vários povos onde for acolhido e se radicar. Ao longo do ano jubilar, pudemos saborear de modo especial a beleza deste rosto pluriforme da Igreja. Talvez seja só um início, um ícone apenas esboçado do futuro que o Espírito de Deus nos prepara.”
A inculturação deve inculcar em nós, cristãos da Índia, uma ideia firme de que pertencemos à Índia Mãe, e de que nós e as nossas crianças, já desde tenra idade, apreciemos o nosso ethos e cultura.
Foi o padre jesuíta, Thomas Stephens, o primeiro a lançar a semente da inculturação na Igreja de Goa, por via do seu poema épico Krist- P uranna , no qual a P alavra de Deus é expressa no estilo das escrituras hindus, para que os brâmanes de Salcete, que tinham então recentemente aceite a Boa Nova, pudessem recitá-lo no tom a que estavam acostumados, derivado das maneiras e categorias do pensar da cultura e tradição religiosa local. É o exemplo por excelência da inculturação realizada em Goa.
Fernando do Rego (Goa) apresenta P adre Vasco do Rego (Goa) 30.03.05
Depois de ter dado algumas opiniões, sobre a Inculturação / Aculturação na Igreja Católica em Goa, passo a palavra ao P e. Vasco do Rego.S.J. que vos apresento com alguns dos seus dados biográficos:
Feito o curso de Filosofia no Seminário de Rachol, ele entrou na Companhia de Jesus em 1945. Em 1952, os seus Superiores enviaram-no para o curso de Teologia a Lovaina, onde foi ordenado sacerdote em 15 de agosto de 1955. No seu regresso à Índia, ocupou vários lugares: entre outros, o de Conselheiro de estudantes da St. Vincent's High School em P una, Director Espiritual do Seminário de Rachol, Reitor do Colégio Loyola de Margão, Mestre de Noviços e Reitor da Casa do Noviciado em Desur (Belgão), Director da Casa de Retiros em Baga (Calangute, Goa), Reitor da Basílica do Bom Jesus, etc.
&&&
Ouçamos o P adre Vasco do Rego :
Inculturação e Diálogo
–– Exigências do Evangelho
por Vasco do Rego s.j.
Observações preliminares importantes :
1) Esta não é, nem de longe, uma dissertação sobre a Inculturação. Apenas uns pontos que espero ajudarão os leitores a compreender pelo menos um pouco o problema muito sério que está a ser seriamente ventilado na Igreja de hoje, sobretudo na Ásia. Isto mesmo será feito só nas suas grandes linhas.
2) Não desejo comentar directamente sobre nenhuma das contribuições de quem quer que tenha tomado parte neste diálogo. É possível que essas pessoas e outras encontrem qualquer confirmação ou esclarecimento nesta minha apresentação. Se sim, fico satisfeito. Se não as ajuda, a falta talvez seja da minha apresentação deficiente.
3) Apresento as minhas observações como filho leal da Igreja Católica, que amo entranhadamente e que, por dom divino, tenho servido e que espero servir lealmente até o fim dos meus dias . Não sou nenhum “teólogo”, mas, desde os “bancos da escola” de Teologia em Lovaina (1952) sob a orientação de Mestres de fama mundial, não tenho deixado de estudar e aprofundar os meus conhecimentos “aos pés” de Mestres eminentes e sobretudo “aos pés de JESUS”, sob a luz do Seu ES P ÍRITO, em filial e leal atenção ao Magistério. Dou graças a Deus, nosso P AI, pelos peritos cristãos da Ásia (sobretudo da Índia) universalmente reconhecidos pela sua competência a quem muito devo nesta modesta apresentação.
4) Não tenho lido nada deste género em P ortuguês. Nem consigo, porisso, exprimir certos conceitos ou tournure de phrase na língua de Camões. Estou suficientemente familiarizado com o que se publica em Inglês. A única palavra usada para o caso é “ Inculturation ”. Após o Sínodo da Ásia João P aulo II promulgou o seu Documento Ecclesia in Asia (EA) . Na versão inglesa deste documento muitas vezes o P apa usa a palavra “ inculturation ”, “ inculturated theology ” etc, sem nenhuma explicação do termo. Em outros documentos seus também (por ex. “Fides et Ratio” ). Tanto basta para sabermos que esse termo técnico já adquiriu “cidadania” no vocabulário mesmo official da Igreja. Terei de citar certos textos em Inglês, que prefiro não traduzir quer porque em tal e tal caso (documentos oficiais) não possuo a tradução oficial portuguesa, quer porque traduzí-los adequadamente demandaria um esforço muito grande e bastante tempo.
5) Segundo me dizem, “aculturação” é a única palavra portuguesa registada nos dicionários. Não extranha, porque “inculturação” é um termo técnico relativamente recente, de significado especial, que ainda não tem entrado na usança habitual dos que falam português. Talvez teólogos portugueses já usem a palavra “Inculturação”.
Mas para o nosso caso eu não posso aceitar esse termo: “aculturação”. Logo abaixo vereis porquê.
6) Não tendo comigo neste momento o texto original de EA , as citações são tiradas de vários artigos publicados na revista mensal VIDYAJYOTI Journal of Theological Reflection, ou noutras.
7) Considero unicamente e muito sumariamente certos aspectos da inculturação na nossa Ásia multi- cultural, multi-religiosa, multi-étnica, multi-linguística.
Vocabulário explicado : Aculturação, Inculturação, Diálogo
“ Aculturação ”: significaria para mim o resultado de duas culturas estarem lado a lado, em comunicação mais ou menos consciente, mais ou menos profunda, donde resulta irem mutuamente assimilando elementos duma e doutra. Aqui se situa, por ex., a adopção de certos trajes, mobiliário, vocábulos de uso corrente nas línguas faladas pela gente das duas culturas, digamos, coisas de utilidade prática na vida diária etc. etc.. Esta espécie de “assimilação” ou “absorção” não é regimentada ou imposta por qualquer legislação, mas faz-se espontaneamente.
“ Inculturação ”: é, no nosso vocabulário Cristão, algo de muito mais profundo, que toca a Religião, a Teologia e Filosofia, a Liturgia, a vida dos discípulos de JESUS. Ela indica a inserção (qual semente lançada ao solo) do Evangelho puro numa cultura.
“ Diálogo ”: No nosso contexto não se trata dum diálogo como o que estamos a ter aqui sobre o tema que nos foi proposto, no qual cada um vai exprimindo as suas opiniões. Não falamos de simples encontros e conversas mesmo interessantes e úteis entre amigos ou entre peritos duma certa ciência ou ocupação.
João P aulo II no seu documento pos-sinodal Ecclesia in Asia (EA) reconhece que “a importância do diálogo é uma maneira característica da vida da Igreja na Ásia.” E explica que tal diálogo não é “uma simples estratégia para uma coexistência pacífica entre os povos; ele é uma parte essencial da missão da Igreja, ... uma parte da missão evangelizadora da Igreja..., mais do que uma maneira de fomentar mútuo conhecimento e enriquecimento.”
Sem pretender dar uma definição perfeita, tentei apenas esboçar uma certa breve explicação destes termos, pois isto me pareceu não só útil mas mesmo necessário para o nosso caso.
INCARNAÇÃO -- Fundamento da Inculturação e do Diálogo
Desejo primeiro focar que a Inculturação e o Diálogo de que nos ocupamos aqui se baseiam no Mistério da Incarnação , são expressão deste Mistério.
A bem ver, o Diálogo de Deus com a humanidade começou desde o início da criação e tem continuado através dos séculos. Mas, segundo a nossa Fé cristã, ele atingiu o cume no Mistério da Incarnação. Na Incarnação o Diálogo se fez adentro duma perfeita Inculturação .
O Filho de Deus entrou na nossa humanidade como uma semente lançada à terra. Muito concretamente, Ele entrou na cultura sócio -religiosa judaica; fez-se perfeito Judeu! Assumiu, absorveu e viveu tudo quanto de bom encontrou nessa raça, nessa cultura, fruto da obra do ES P ÍRITO DO SEU ABBA ; e, pela Sua inserção nessa humanidade, fez aos Seus patrícios e correligionários um vibrante apelo para tomarem novo rumo (“convertei-vos”), e aos poucos, pela Seu modo de viver, pelos Seus ensinamentos, pelos Seus actos que por vezes chocavam a gente em volta, lançou-lhes um “desafio”, um challenge, para que o Judaísmo - a sua maneira de viver nas relações com Deus e com o próximo - ficasse assim purificado, renovado, transformado. Não exigiu nem pediu uma conversão para outra “nova Religião”, para a “Sua” nova Religião. A Sua inculturação era um convite, um apelo, para um novo modo de vida ..., um novo Caminho.
Esta nova maneira de viver não aceitava nenhuma discriminação ou marginalização, nenhuma injustiça, mas unicamente uma autêntica fraternidade e paz. P ois que JESUS revelou - ainda e sobretudo pela Sua morte na cruz e ressurreição - que, na base e no cume, Deus Infinito, Invisível, Inacessível, que os Judeus e os povos da terra veneram sem O conhecer, é para todos e cada um o ABBA sempre amante, Deus de amor incondicional, ABBA todo compaixão, ainda quando os Seus caminhos nos são incompreensíveis. Mostrou JESUS que este ABBA quer que Seus “adoradores” O aceitem como tal por uma fé total e Lhe prestem este culto em Verdade. Era para que cada sociedade, a humanidade inteira, se torne uma Família que esta inculturação e este diálogo tiveram lugar.:
JESUS trazia aos homens qualquer coisa de inaudito, que toca o mais íntimo do Seu Ser e dos seus discípulos: a relação de cada pessoa com Deus. Como comunicar-lha?
JESUS próprio fê-lo por esta inculturação :
? Num diálogo com os Seus discípulos Ele lhes disse: “quando orardes dizei ‘ABBA ...' ”.
“ABBA” é a palavra que a criança judía dirige somente ao seu P ai pelo sangue e a nenhum outro homem; nem a usa para com uma outra criança referindo-se ao P ai desta ? aspecto intrínseco da cultura.
? Num outro diálogo depois da Ressurreição Ele disse à primeira missionária :
“... diz aos meus irmãos ... eu subo para o Meu ABBA e vosso ABBA, para o Meu Deus e vosso Deus ... ”.
E assim Ele deixava esta Inaudita Revelação para todos quantos quisessem recebê-la em todas as culturas:
Falai a Deus com a intimidade que tendes com o vosso pai
e chamai-lhe assim com o termo íntimo que usais na vossa cultura, na vossa família .
A Incarnação do Filho de Deus foi portanto uma perfeita “ Inculturação ” que Ele viveu num constante “ Diálogo ” em profundidade com as pessoas que formavam esse grupo socio-cultural-religioso. Os Evangelhos lidos e meditados em profundidade revelam-nos esta Sua maneira de viver e agir.
Mas JESUS RESSUSCITADO é o Homem Universal que continua e quer continuar a Sua missão entre todos os grupos de culturas socio-religiosas as mais variadas. P edro e os primeiros Cristãos, sem nenhuma preparação intelectual, e mesmo com certa resistência dos Judeus que haviam pedido o Baptismo e assim se tinham juntado ao grupo dos primeiros discípulos, foram vivendo como podiam a mesma “ inculturação ” e o mesmo “ diálogo ”. O mesmo sucedeu nas outras cristandades que se iam formando no mundo greco-romano.
E não só em Roma, mas no resto da própria Europa, foi a Igreja adoptando e adaptando costumes e ritos dos povos que se convertiam ... tirando deles o que neles encontrou de bom.
Mas quando chegou às nossas praias o Cristianismo do Século XVI, infelizmente esta Grande Realidade ou exigência evangélica de uma “ inculturação ” e um “ diálogo ” no sentido profundo ficou, por vários factores, esquecida na Igreja.
Inculturação e Diálogo : Incarnação Continuada
A Inculturação e o Diálogo , quais outros “termos modernos” que, espero, podem servir para melhor penetrarmos no insondável Mistério da Incarnação, são portanto, como acabamos de ver, o Mistério do Verbo Divino (= P alavra de Deus) que entra duma maneira nova e totalmente inesperada num diálogo inaudito com a humanidade, Mistério do Filho de Deus “que se fez carne” ... que penetrou na nossa humanidade, num povo determinado ... na cultura desse povo ... : inculturação perfeita! Foi como a semente lançada neste “solo”.
Mas este inesgotável Mistério destina-se ao mundo inteiro, a todas as épocas, a todas as raças e culturas... Nelas todas, em cada uma delas, a “Semente” tem de ser lançada ao “solo”. Quer dizer que a Inculturação e o Diálogo têm de continuar através dos séculos e através das nações e culturas do universo.
Esta “Semente”, sublinho, é o “Mistério” de JESUS, da Sua P essoa e da Sua visão, da Sua dedicação sem reservas a Deus e aos homens até a morte culminando com a ressurreição, da Sua mensagem libertadora - este Evangelho puro, é todo ele proclamado primeiro pelos Apóstolos e continuado através dos séculos.
A cultura (o “solo”) onde ela é plantada “reage” à sua maneira à “Semente” para aí produzir frutos autênticos mas originais a partir do “solo” que é essa cultura.
Mas há mais:
essa “Semente”, no seu aspecto de proclamação e vivência subsequente, não só absorve do “solo” e faz seu tudo quanto de bom Deus Criador e Seu Espírito sempre activo tenham posto nele ao longo da sua história, mas também, à medida que se vai desenvolvendo, esta “Semente muito especial” vai “purificando” o “solo”, vai lançando um “desafio” (a challenge , diríamos em Inglês) ao que nele encontra de malsão, de contrário à vontade divina para a verdadeira felicidade dos que vivem nessa cultura, dos que se nutrem do “solo”. Assim a própria cultura (o “solo”) se vê aos poucos renovada, se torna mais e mais “reino de Deus”.
P ois foi para estabelecer este “reino de Deus” já nesta terra que JESUS veio ao mundo, viveu a Sua vida humana, ensinou, fez as obras do Seu P AI e finalmente deu a vida. E é para continuar esta Sua missão pelo mundo inteiro até a consumação dos séculos que Ele fundou a Sua Igreja, a Sua Comunidade de discípulos, e para isso os enche do Seu ES P ÍRITO.
Esta “Semente” não é lançada ao “solo” primariamente por livros ou coisas deste género, mas pelos discípulos de JESUS, Seus membros vivos, que já se deixaram impregnar pelo “Mistério” e cuja vida, mesmo no meio de fraquezas e limites humanos, está pautada sobre JESUS e o Seu Evangelho. São eles, sobretudo pela sua vida , os “mensageiros”, são eles os “semeadores”, em quem vive o Grande Semeador, JESUS RESSUSCITADO. Bem resume e esclarece com vigor o missiólogo Jacob Kavunkal, como a história confirma:
“The Church has to stand for what Jesus Christ stood and worked for: the realization of God's reign on earth, which was the foundational and only theme of Jesus' work.”
Sem este testemunho vital,
“a sheer proclamation of the uniqueness of Jesus Christ will turn out to be a religious competition which in the Asian context can only lead to fanaticism and religious violence, the opposite of the divine reign!”
João P aulo e as Igrejas da Ásia: duas visões, dois “ approaches ”
I - A visão e o approach de João P aulo II
O P apa no seu documento pos-sinodal EA tem certamente muito de positivo, coligido sobretudo das intervenções dos Bispos no Sínodo da Ásia e dos seus próprios contactos com os países da Ásia por ocasião das suas várias visitas pastorais. Cito apenas certas passagens:
“The Spirit who moved upon Asia in the time of the patriarchs and prophets, and still more powerfully in the time of Jesus Christ and the early Church, moves now among Asian Christians, strengthening the witness of their faith among the peoples, cultures and religions of the continent…. . The Church well knows that she can accomplish her mission only in obedience to the promptings of the Holy Spirit. Committed to being a genuine sign and instrument of the Spirit's action in the complex realities of Asia , she must discern, in all diverse circumstances of the continent, the Spirit's call to witness to Jesus the Saviour in new and effective ways… . The Church is convinced that deep within the peoples, cultures and religions of Asia there is a thirst for ‘living water'. (EA 18)
“The faith which the Church offers as a gift to her Asian sons and daughters cannot be confined within the limits of understanding and _expression of any single human culture, for it transcends these limits and indeed challenges all cultures to rise to new heights of understanding and _expression.” (EA 20)
“For two thousand years the Church has been closely associated with the Greco-Roman European culture. This does not mean that our transcendent universal faith cannot be expressed in other cultures, in our case in the Indian cultures. Indeed, Indian religiosity and cultures will be greatly enriched by Christianity. – Christology in India needs have an Indian countenance and this can be done through appropriate Indian categories.” (EA 21)
“Through inculturation the Church becomes a more intelligible sign of what she is and a more effective instrument of mission. (John P aul II, Redemptoris Missio 52)
This engagement with cultures has always been part of the Church's pilgrimage through history. But it has a special urgency today in the multi-ethnic, multi-religious and multi-cultural situation os Asia , where Christianity is still too often seen as foreign.” (EA 21)
Apesar destas e doutras várias declarações, que não só justificam mas encorajam o esforço de inculturação, em EA João P aulo propõe com insistência para a Evangelização da Ásia neste Terceiro Milénio a proclamação explícita de JESUS CRISTO como o único Salvador, e isto com as formulações dogmáticas do Ocidente . P ara ela procura o P apa impelir com todo o vigor as Igrejas da Ásia.
É esta a sua visão para a Evangelização da Ásia, é este o seu “ approach” .
II - A visão e o“approach”das Igrejas da Ásia e seus peritos
Evocando os grandes iniciadores da inculturação na Índia dos séculos passados – os Jesuítas Roberto Nobili, João de Brito, Constant Beschi, C. Bulke – e citando e confirmando várias declarações positivas do P apa sobre a inculturação e o diálogo, para os quais o Concílio Vat. II deu sanção oficial, o Bispo Thomas Dabre, de Vasai (perto de Bombaim), escreve:
“The Church in India should assiduously seek to promote meaningful communication of the Christian message to the Indian people. This requires that inculturation, inter-religious dialogue and human emancipation and development be launched in all earnestness…” (Artigo na Revista mensal VIDYAJYOTI, Dez. 2004).
O Bispo Dabre mostra com razão a importância de criar uma atmosfera apropriada para o estudo e reflexão dos documentos romanos relativos à Fé, à Moral e à Liturgia, mas não manifesta nesse artigo digamos os aspectos negativos da visão e do “ approach ” de João P aulo.
Enquanto outros peritos católicos Asiáticos sérios e de grande reputação, mesmo leigos, têm muitas reservas a fazer sobre a visão do P apa e o seu approach a vários pontos de importância capital para a Evangelização da Ásia.
Um dos mais respeitados Bispos Indianos é o Arcebispo Salesiano Thomas Menamparampil (de Guwahati, Estado de Assam, nordeste da Índia), conhecido pela sua teologia segura e fiel à tradição, pelo seu zelo e experiência de P astor e pela sua grande sensibilidade às necessidades pastorais na situação actual da Índia. Num artigo recente ( VIDYAJYOTI, Jan. 2005) em que também cita palavras muito justas de João P aulo (EA 18, 7, 12, 14) ele escreve:
“ P astorally experienced persons in Asia testify that arguments from philosophy and historicity do not impress the Asian seeker, but the gracious words of Jesus always win attention. The impressive works that the Church does for education, health and social welfare are greatly admired, but hearts are touched only by sharing deep spiritual experiences. P eople flock to where there is a genuine spiritual atmosphere, and are not moved by elaborate structures and organizational set-ups, whether institutional or ashramite.”
E mais abaixo:
“Anyone who has the experience of sharing the Faith knows that arguing about the uniqueness of Christ is an idle exercise. Bringing theological contentions to the ardent Searcher only dampens his or her enthusiasm. P ersons at the service of the Gospel must stop being wranglers and keep away from sterile apologetics. And we have to go beyond tolerance. Inter-religious relationship is far more than sullen co-existence.”
P or seu lado o P e. John Mansford P rior SVD, Inglês de origem mas já por longos anos missionário na Indonésia, nomeado pelo Vaticano director da secção Inglesa do “ P ress Office” durante o Sínodo da Ásia (1998) com direito a assistir a todas as sessões do mesmo, perito bem conceituado e experimentado, num comentário ao Documento EA (na East Asian P astoral Review 37 (2000) 261: “Unfinished Encounter: A Note on the Voice and Tone of Ecclesia in Asia” ) , faz uma observação muito importante, muito elucidativa. Cito-a por extenso em Inglês, tal a sua profunda penetração na realidade da Ásia:
“ Whatever the nuances, however great the social contribution of the mission Churches in the past, however heroic the sacrifices of cross-cultural missioners over the centuries, the fact remains in stark clarity: the Latin Churches of Asia are a foreign presence .
They are
- alien in the official dress of its leaders; alien in its rituals (despite use of mother tongue);
- alien in its formation of cultic and community leaders in foreign thought patterns in seminaries whose professors are foreign-educated;
- alien in its large, often rich, institutions among the people who are generally poor;
- above all alien in that Christians have had to uproot themselves from their own cultural identity in order to claim a ‘hybrid' Christian one.
This is a major issue for most Asian bishops. However, Ecclesia in Asia mentions it in passing in a single sentence as though the problem was over: ‘… the Church in many places was still considered as foreign to Asia, and indeed was often associated in people's minds with the colonial powers'” (EA 9) (emphasis added). (são meus o sublinhado e a salientação.)
* * Como é difícil a alguém de mentalidade ocidental entrar na “realidade asiática”! Mesmo a João P aulo II! P astor Universal bem cônscio da sua enorme responsabilidade, homem duma Fé profunda e dum amor acendrado pela pessoa do JESUS, nosso Salvador, está ele dotado dum indiscutível zelo pela Evangelização da Ásia neste terceiro milénio. Mas, todo mergulhado no sistema filosófico greco-romano dentro do qual se originaram formulações dogmáticas cristãs, julga deverem ser estas proclamadas tais quais são aos Asiáticos. Custa-lhe compreender que as conclusões dogmáticas em roupagem de linguagem filosófica greco-romana são completamente estranhas a estes, enquanto eles têm seus sistemas próprios. Custa-lhe também apreender, da maneira como se apercebem os Bispos da Ásia e outros peritos, toda a profundidade do valor salvífico que, por vontade divina, se revela nas religiões da Ásia. Na sua visão, admitir isto parece contradizer várias expressões bíblicas e tradição da Igreja.
A P rovidência tem-nos dado um grande P apa desde 1978. Mas esta sua maneira de ver o problema na Ásia contrasta com o que sentem peritos asiáticos, sobretudo no campo da teologia, liturgia, e acção pastoral em que tem lugar a proclamação de JESUS CRISTO e a Sua “Uniqueness” . P or exemplo, o erudito missiólogo Jacob Kavunkal mostra como, enquanto João P aulo admite as dificuldades desta proclamação, insiste contudo com grande ênfase nas formulações clássicas – ocidentais - da Fé. Ora para adeptos convencidos de religiões asiáticas as nossas afirmações apresentam-se como “outright arrogance and blind superiority.” Assim fica bloqueada ainda uma aproximação de carácter religioso entre Cristãos e membros de outras religiões.
Entre outras coisas afirmara João P aulo na EA :
“ There can be no true evangelization without the explicit proclamation of Jesus as Lord. ” ( sublinhado por mim)
Escreve Kavunkal, comentando várias destas expressões e afirmações do P apa na EA :
“Christians in Asia, without denying that God reveals and gives himself in Christ, have reason to believe, because of their experience of people of other religions and the fruits of the Spirit manifest in their lives, that God has also revealed and given Godself to other peoples through other mediations in other religions. P eople indeed have a ‘right' to hear the Good News. But for over two thousand years people in Asia, especially those belonging to the ‘great' religions of Asia , have also affirmed their ‘right' to follow their religion, even when exposed to Christianity. They have not experienced Christianity as a ‘fulfillment'.”
Michael Amaladoss S.J., Josef Neuner S.J. e outros teólogos sérios e de fama universal, filhos leais da Igreja, salientam os mesmos sérios inconvenientes dessa espécie de proclamação . Nenhum deles deixa de aceitar que o Mistério total de JESUS tem de ser proclamado também no nosso Continente .
Mas como fazê-lo? Qual deve ser o nosso “approach” cá na Ásia?
Amaladoss com muitos outros sugere que os Cristãos são chamados a proclamar a sua experiência vivida de JESUS e dos Seus feitos em vez de o fazerem por conclusões intelectuais dogmáticas . Neuner (Austríaco naturalizado Indiano, que tem vivido na Índia pelos menos 65 anos dos seus 95, perito dos Bispos Indianos no Vat.II) chega a dizer que a proclamação feita da maneira desejada pelo P apa implicaria “a condemnation of other religions” . Falam de experiência pessoal, e assim mostram o que muitas pessoas de boa vontade pertencentes a outras religiões sentem e exprimem sobre este approach da Igreja.
Afinal o que a Igreja tem de fazer é prolongar a maneira de fazer, o approach , de JESUS DE NAZARÉ.
Já no Sínodo da Ásia, a maneira dos Bispos Asiáticos de responder ao tema reforçado pelos homens da Cúria era de falar repetidas vezes de proclamação através dum autêntico testemunho de vida. Seguindo vários outros, o Bispo Siro-Malabar Gratian Mundanan afirmara corajosamente: “In the religious ethos of Asia mere doctrinal, legal and institutional power does not have any appeal. Further, the image projected by the Church of power, riches, institutional, influential, is looked upon as a threat.”
Ali mesmo o Cardial Ricardo Vidal das Filipinas declarara: “Accepting Jesus as Lord of one's life should be accompanied by an emphasis on the social dimension of conversion, necessarily seeking to dismantle the structures of sin.”
Mas não são só indivíduos com a toda a sua indisputada competência que assim sentem e falam. Ouçamos inteiras Conferências Episcopais. Ao fazê-lo, lembremo-nos de que, sempre em comunhão com o Bispo de Roma, todos os Bispos da Igreja - como bem frisa Vat. II - têm a responsabilidade colectiva de velar pela Fé Cristã autêntica , pela Verdade que nos foi revelada principalmente na P essoa de JESUS CRISTO e de a propagar pelo universo .
Ora os Bispos da Ásia têm formado desde a conclusão do Concílio a chamada Federation of Asian Bishops' Conference (FABC), associação voluntária das Conferências Episcopais dos países da Ásia do Sul, do Sudeste, do Leste e do Centro . Cônscios da grande responsabilidade que lhes foi divinamente confiada, reúnem-se em Assembleia Geral cada quatro anos junto com os melhores peritos e discutem problemas de suma actualidade segundo as exigências do pluralismo religioso e da situação concreta das ingentes populações deste Continente. Assim têm eles vindo dando uma orientação positiva à Teologia e à acção pastoral. Nesta orientação figuram sempre em proeminência a Inculturação e o Diálogo .
A sua VII. Assembleia P lenária (FABC VII) após a promulgação de EA, convocada precisamente como continuação do Sínodo da Ásia, tomou como tema “Uma Igreja Renovada na Ásia: Uma Missão de Amor e Serviço” . Guardando diante dos olhos EA , desejando sempre deixar-se conduzir pelo ES P ÍRITO, produziu um documento de singular importância. Mantendo a sua lealdade ao P apa e a sua comunhão com a Igreja Universal, os nossos Bispos focam duma maneira bem diferente e totalmente adaptada à Realidade Asiática as exigências da Evangelização bem compreendida .
Em vez de adoptar a terminologia de João P aulo ( “Nova Evangelização” ), FABC VII emprega um novo termo para explicar e desenvolver “ a nossa Missão de Amor e Serviço ”. Esse termo é: “Evangelização activa integral” . Cito:
“We need to feel and act integrally. As we face the needs of the 21st century, we do so with Asian hearts, in solidarity with the poor and the marginalized, in union with all our Christian brothers and sisters, and by joining hands with all men and women of Asia of many different faiths. Inculturation, dialogue, justice and the option for the poor are aspects of whatever we do.”
Citando este e os textos infra da FABC, muito bem frisa Jonathan TAN YUN-KA (téologo leigo da Malásia, professor de Teologia, Religião etc nos EUA) que os nossos Bispos mostram sem ambiguidades que a nossa compreensão e execução da “evangelização” deve partir da vida dos povos na Ásia, na sua grande diversidade cultural e religiosa, peregrinando juntos, e procurando com eles enfrentar os seus problemas existenciais:
“The most effective means of evangelization and service in the name of Christ has always been and continues to be the witness of life . The embodiment of our faith in sharing and compassion (sacrament) supports the credibility of our obedience to the Word (proclamation). This witnessing has to become the way of the Gospel for persons, institutions and the whole Church community. Asian people will recognize the Gospel that we announce when they see in our life the transparency of the message of Jesus and the inspiring and healing figure of men and women immersed in God.”
“We are committed to the emergence of the Asianness of the Church in Asia . This means that the Church has to be an embodiment of the Asian vision and values of life …”
Isto é, em outras palavras, o que chamamos Inculturação.
P ara todo o programa delineado pela FABC temos de prestar atenção, com os nossos Bispos, a mais um ponto capital. Cito desta vez FABC I :
“The great religions of Asia are significant and positive elements in the economy of God's design and salvation. In them we recognize and respect profound spiritual and ethical meanings and values. Over many centuries they have been the treasury of the religious experience of our ancestors, from which our contemporaries do not cease to draw light and strength. They have been (and continue to be) the authentic _expression of the noblest longings of their hearts, and the home of their contemplation and prayer. How can we not give them reverence and honour? And how can we not acknowledge that God has drawn our peoples to Himself through them? (FABC I, arts 14-15).
Em outro documento ( Bira IV/3 ) dizem os nossos Bispos:
“It is the same Spirit who has been active in the incarnation, life, death and resurrection of Jesus and in the Church, who was active among all peoples before the Incarnation and is active among the nations, religions and peoples of Asia today.”
Chegamos a perceber que este reconhecimento nos impele ao Diálogo? Exactamente como fizera JESUS DE NAZARÉ na P alestina...
Impossível a P roclamação do Evangelho sem Inculturação e Diálogo
Que expressões de fé estas dos nossos Bispos, as que acabamos de ler, na acção do ES P ÍRITO, acção que vai muito além de tudo quanto possamos imaginar!
Se compreendemos esta verdade, esta maneira divina de agir no mundo, e na Ásia, mesmo nos séculos que precederam a Incarnação, compreenderemos que não poderemos proclamar o Evangelho senão primariamente - como dizem os nossos peritos, bem como pastores muito experimentados e a FABC - proclamando a nossa experiência vivida de JESUS e dos Seus feitos em vez de o fazer por conclusões intelectuais dogmáticas.
Ora esta espécie de “proclamação” segue as pisadas de JESUS DE NAZARÉ, isto é, por meio duma inculturação bem compreendida . Como autênticos Cristãos, veremos na inculturação e no diálogo profundo com as populações e suas culturas nas quais a P rovidência nos tem colocado uma exigência da nossa vocação cristã . A vivência da nossa Fé cristã só ficará enriquecida com essas riquezas da Ásia, e, por seu turno, os povos da Ásia viriam a enriquecer-se com a Riqueza que lhes traz JESUS e o Seu Evangelho!
Nesta atmosfera e nesta Inculturação nenhum receio de ficar negada ou diluida a Verdade Revelada , nenhum receio de proselitismo indesejado, nenhuma inibição causada por um sentimento de superioridade, nenhuma sombra de dominação religiosa do Cristianismo ou do Ocidente, nenhuma acusação de tácticas de conversão...
A conversão é sempre obra do ES P ÍRITO. Haveria conversões (i. e. novos adeptos baptizados) para o Cristianismo? Talvez. P rovavelmente até. Se sim, seriam elas, sob o impulso do ES P ÍRITO, uma livre opção de indivíduos ou de grupos. Mas não teríamos de enfrentar oposição sob acusações de pressão, de aliciamento condenável, etc. Os convertidos não se veriam desarraigados do seu meio cultural; antes, encontrariam as manifestações sadias da sua cultura socio-religiosa confirmadas e quiçás purificadas na senda nova que terão escolhido. P essoas de diferentes religiões, em mútuo respeito e amizade, se dariam as mãos para construir um mundo novo, uma sociedade nova, que seria o “Reino de Deus” na nossa Ásia.
Mesmo a nossa CBCI já na sua resposta oficial às “Lineamenta” (Guidelines) enviadas a todas as Conferências Episcopais em preparação para o Sínodo da Ásia, declarara não ser aceitável cá na Índia um approach exclusivista (= pregar salvação como possível somente através de JESUS e da Sua Igreja) que não tomaria em consideração a situação multicultural e multireligiosa do nosso país. Dissera entre outras coisas:
“...for hundreds of millions of our fellow human beings, salvation is seen as being channeled to them, not in spite of, but through and in their various socio-cultural and religious traditions.”
Seguiu a mesma linha de pensamento a Conferência Episcopal dos Bispos da Indonésia. E ainda mais fortemente a dos Bispos Japoneses:
“Jesus is the Way, the Truth and the Life, but in Asia, before stressing that Jesus is the TRUTH, we must search much more deeply into how he is the WAY and the LIFE. If we stress too much that ‘Jesus Christ is the One and Only Saviour', we can have no dialogue, common living, or solidarity with other religions.” (sublinhado por mim)
Todas estas declarações autoritativas mostram a necessidade absoluta dum Diálogo sincero, aberto e profundo, com as populações dessas religiões e culturas, um Diálogo que se integra na Inculturação e por seu turno leva para ela.
Durante o Sínodo até que ponto os Bispos da Ásia, deixando-se guiar pelo ES P ÍRITO, quiseram afirmar com ênfase a necessidade do DIÁLOGO fica manifestado assim: durante os primeiros 7 dias houve 191 intervenções. Destas 43 (=22,5%) falavam da missão da Igreja na Ásia para entrar em diálogo com outras tradições (não-cristãs) de fé ; 41 (=21.4%) referiam-se ao diálogo com as culturas vivas da Ásia ; 33 (= 17.2 %) salientaram o diálogo com os pobres . O último lugar - 29 (=15.2 %) - coube ao tema Igrejas do laicado .
João P aulo é certamente o P apa que mais que qualquer outro tem trabalhado para avançar a causa do diálogo e harmonia entre as religiões. Mas para ele este diálogo, adentro da sua visão, é apenas um método pedagógico de “evangelização”, um caminho ou uma preparação para a conversão (livre, evidentemente!) dos ouvintes para o Cristianismo.
P or isso mesmo Aloysius P ieris S.J., insigne teólogo de Sri Lanka, junta-se a outros peritos asiáticos para mostrar que as afirmações do P apa “can be labelled pejorative, paternalistic, and smacking of religious-cultural imperialism if they attempt to appropriate and reorientate the cultural, religious and philosophical traditions of Asia to serve the Christian Gospel and the Church without regard to their intrinsic integrity.”
Inculturação na Liturgia
A inculturação na vida social deve ser um fenómeno normal para nós Cristãos. Infelizmente, como já acima disse, por várias circunstâncias de ordem politica e religiosa, chegamos nós, (refiro-me sobretudo aos Cristãos de Goa), a pôr de parte e mesmo a olhar com desprezo para muitos costumes locais, bons e mesmo bem significativos. Mas disso não falarei.
Abordar o problema da falta de inculturação na Teologia e Filosofia seria provavelmente inacessível e fastidioso para quem não está versado nela.
Mas desejo propor-vos que considereis o que tem sucedido na Liturgia da Igreja Latina, que nos foi imposta há séculos.
Suponho que sabeis que, mesmo dentro da Igreja Católica Romana, ainda na Europa, existem ritos de Igrejas que não pertencem ao Rito Latino e que de forma alguma estariam prontas a aceitar o “jugo” do Rito Latino. A Igreja Católica, mesmo no Vat. II, confirmou-as nestes seus ritos próprios .
E contudo a Igreja Católica Universal continua una. O P e. John P rior, que presenciara durante o Sínodo da Ásia o contraste entre os 2 grupos de Bispos tanto nas sessões oficiais como em encontros informais, numa crítica do Sínodo, deu assim o seu testemunho: “Asia is the one continent where Christians stubbornly remain a tiny minority, where the languages and cultures, philosophies and theologies are not European. (Referia-se às Igrejas indígenas do Médio Oriente e do Sul da Índia (Kerala), de origem apostólica.) Latin Christianity is struggling to escape from its five-century western cocoon and come to life as inculturated, local ecclesial communities, authentically Asian.”
A Liturgia é, sobretudo nas grandes religiões, a área religiosa em que um povo ou uma comunidade colectivamente se vê e se define nas suas mais íntimas relações com Deus. Haverá também chefes religiosos que dirigem ou animam estas assembleias, mas nelas o povo sente-se chez soi e sente-se mais invigorado. A comunidade adora, louva, pede perdão, implora; ela celebra ocasiões especiais e ouve mensagens que podem alimentar a sua vida - mensagens tiradas dos seus livros sagrados ou “homilias” dos seus dirigentes espirituais; ela fortifica-se nas suas convicções espirituais... Este ritos contêm certamente elementos que se cristalizaram através dos anos. P or vezes misturam-se aos ritos certas práticas que classificaríamos de superstições.
Mas nas regiões evangelizadas por missionários da Igreja Latina TUDO na Liturgia Católica ficou diferente, extranho, extrangeiro.
A causa desta “metodologia missionária”
Como é que se chegou a isso?
Submeto a minha tentativa de resposta, que certamente não discorda dos nossos grandes pensadores Asiáticos, sempre leais à Igreja : a causa está na absoluta falta de “inculturação” do Evangelho desde que a Igreja de Roma se tornou “imperial” a partir do imperador Romano Constantino que deu à Igreja liberdade religiosa e fez do humilde sucessor de P edro um super-rei, um “imperador” religioso.
A partir de então, exactamente como os reis do mundo, a Igreja Latina de Roma foi “estendendo o seu império” através de leis uniformes rígidas, de formulações “imutáveis” das verdades da Fé, formulações que nasceram num certo contexto cultural-filosófico, duma visão greco-ocidental do mundo... etc.
É levados por esta “visão” e por estas leis que homens como Roberto Nobili e João de Brito foram muito mal compreendidos pelos seus próprios irmãos Jesuitas e pelas autoridades em Roma. P ensaram que eles renunciavam a sua Fé Cristã!
Frutos indesejáveis dessa metodologia
Lembro-vos, entre muitas outras coisas, o Latim obrigatório da Liturgia durante séculos . Assim não foi possível, sobretudo na celebração da Eucaristia, a aliás necessária e essencial “participação plena, consciente e activa dos fiéis”, “participação inteligente, devota e activa”, como bem frisa Vat. II, como condição primária para uma Liturgia frutuosa, “Fonte e Cume” da vida e actividade da Igreja!
Os fiéis nem podiam compreender patavina da P alavra de Deus que lhes era “proclamada” ... de costas voltadas para eles, nem as orações recitadas ou “solenemente cantadas” unicamente pelo celebrante!
Nem mesmo o P AI NOSSO !!!! Haveria qualquer pai ou mãe que quereria entrar em comunicação com seus filhos em língua estrangeira que eles não percebessem???
E isso mesmo se diga de todos os Ritos Sacramentais! O texto acima citado do P e. P rior diz o resto sobre esses ritos.
SÓ o ESSENCIAL em todas as culturas
Não se trata minimamente de mudar o essencial do que JESUS instituiu . Nem se pode esquecer que a Liturgia Católica não é nenhum negócio particular de algum indivíduo ou grupo, a ser organizado segundo caprichos individuais. Ela é o culto público da Igreja. P ortanto tem de ser sempre guiada por um certo número de normas gerais e outras particulares, derivadas da nossa Fé. Estas normas têm de ser dadas pelos P astores da Igreja, sucessores dos Apóstolos. Mas elas não podem ser, não devem ser, absolutamente e universalmente uniformes e rigidamente fixadas por uma autoridade central, para cada detalhe da celebração.
Contudo, devido à falha grave que indiquei, nunca pôde cada povo das Igrejas “Latinas” exprimir com expontaneidade à sua maneira, a partir da sua cultura, com seus símbolos próprios que lhe falariam à alma, a sua veneração do P AI; a sua oferenda das alegrias e dores quotidianas, da vida quase sempre cheia das agruras de pobreza ou mesmo miséria, dos seus suores... ; a sua comunhão com o Filho de Deus que Se fez seu Irmão, seu Redentor, seu Sacrifício, seu Alimento; a sua comunhão com os irmãos que participavam no mesmo Banquete de Família....
Nem agora é permitido criar textos novos locais/regionais para os ritos litúrgicos.
Certamente ninguém vai manter que o ES P ÍRITO SANTO limita a Sua inspiração aos compositores desses textos antigos ou de textos novos compostos em Roma !
Contudo é bom que tomeis conhecimento duma norma obrigatória actual : ainda as traduções desses textos romanos, que muitas vezes e por mil motivos não mesmo apelam aos nossos povos - traduções preparadas por pessoas competentes locais e revistas pelos respectivos Bispos - têm de ter a aprovação de Roma, onde nem sequer conhecem a língua !! ... !!!
Naturalmente os pastores locais sentem-se doridos e frustrados com tantas e tão rigorosas restrições. Não há nem uma inculturação positivamente encorajada nem a liberdade que as autoridades Romanas deveriam reconhecer e dar, sob a orientação e liderança dos respectivos Bispos da região, aos filhos de Deus espalhados pelo mundo, às Igrejas locais.
P ergunta-se o que é que é mais importante: a unicidade tornada obrigatória do rito latino (de legislação puramente humana) ou a divinamente outorgada liberdade de filhos de Deus ? E não estão lá os Bispos duma região para dirigir a inculturação dos ritos litúrgicos?
Em que consiste a unidade da Igreja Universal ?
A Igreja é una pela sua única fé, esperança e amor . Nisso ninguém pode nem deve tocar. P ertence sobretudo aos P astores, mas também a todos os membros da Igreja velar por ela e fortificá-la sob a acção do ES P ÍRITO.
A unidade da Igreja Universal nunca pode consistir em um só rito, uma só língua, uma única expressão em falar ao P AI (orações a Deus), etc. ... do norte ao sul e do ocidente ao oriente !
Unidade ou Inculturação ?
Unidade ou Romanização ?
Na prática, sem a inculturação, fica salva uma “dominação” sobre os cristãos, dominação que JESUS nunca quis e não quer ( cf Mt 20/25-26; Mc 10/42-43; 1 P ed 5/3) !
Não sei se sabeis:
1. As vestes que os nossos P adres usam à missa são o estilo das vestes dos sacerdotes dos templos romanos. Em Roma isto seria inculturação. Mas passando para as outras partes mesmo da Europa isto tornou-se imposição/ romanização.
2. Nos países nórdicos europeus havia a festa do “Sol Invencível” que se celebrava no Inverno. A Igreja Latina adoptou esta festa para o que é hoje o nosso Natal.
Ora na África, no sul da Ásia onde não há neve, Natal com neve é sem sentido.
Nas Igrejas Católicas de rito Oriental o Natal é celebrado em 6 de Janeiro.
Inculturação não significa sómente pinceladas, embora sinceras, na Liturgia apenas.
P ara que haja inculturação não basta que os textos litúrgicos, compostos e aprovados por Roma , sejam traduzidos, como actualmente, para o vernáculo, pois que os ritos litúrgicos são impregnados de símbolos. Os símbolos “falam”. P or isso eles têm que ter significado para as respectivas populações nas suas culturas próprias . Alguém que queira seguir Jesus não deve ser desenraizado : TODA a sua vida, na sua cultura, fica impregnada do Mistério de Jesus.
Apesar da abertura sobretudo de Vaticano II, até aqui as autoridades romanas têm escolhido insistir em manter a unidade substancial do Rito Romano para toda a Igreja Latina i.e. na América e na Ásia, na Europa e na África, e na Oceânia !
Além disso, elas reservam para si o direito exclusivo de controlar o processo da inculturação na Liturgia .
Com todo o respeito por elas, acha-se muito extranho e irregular que uma autoridade central, localizada num lugar e numa cultura particular, tão distanciada da realidade local de nações e culturas tão diversas, esteja capaz de examinar e de se pronunciar sobre particularidades de línguas desconhecidas ou a usança de tais ou tais símbolos e coisas assim. E sugere-se que em pontos assim é que se deveriam encorajar e desenvolver a colegialidade episcopal e as dimensões democráticas da Igreja a que Vat. II deu tanta importância .
“Romanização” - essencial à Fé Cristã?
Contudo, com este arranque dos convertidos da cultura local, ficou através dos séculos a tal ponto vincada em nós a “romanização” como sendo essencial à vida cristã, à fidelidade a JESUS , que sobretudo nos meios mais afectados pela ocidentalização (como na nossa Goa, em Bombaim etc), houve há anos, a começar pelos sacerdotes, oposição à inculturação mesmo em pequena medida.
Esta mentalidade e consequente oposição ainda continuam em pequeno grau , em certos grupos. Os pastores e teólogos têm de exercer muita paciência quer na sua actuação pastoral quer nos seus esforços por concretizar as exigências da inculturação, porque Roma continua bastante centralizante e fortemente controladora.
No princípio eram, em geral, missionários estrangeiros de visão larga que a promoviam.Depois de muitos esforços a Catholic Bishops' Conference of India (CBCI) conseguiu obter de Roma autorização para os hoje célebres “12 pontos”, que são mesmo em si por demais restrictivos. P ergunta-se: então os Bispos da Índia todos reunidos não podem decidir por si este detalhe? Esta autorização foi dada já há uns 30 anos ou mais. E contudo, na nossa Goa, não foi e ainda não é permitido o uso de todos os 12 pontos.
História recente da Igreja
Após o Concílio - imensa graça para a Igreja e para o mundo - na década dos 70, entusiasmo de muitos, reticências de certos. P aulatinamente, tensões e polarização com consequências tristes e indesejáveis nas duas direcções. Na década dos 80 foi-se apertando a disciplina. Ainda os Sínodos não funcionam como tais desde 1985.
Bem sublinha um crítico que muitos começaram a usar a linguagem de Vat. II mas guardando a mentalidade e maneira de ser e agir pre-conciliar. “Comunhão”, “colegialidade”, “diálogo” tornaram-se meras palavras, enquanto a centralização e unilateralismo nas relações entre Igrejas se foi acentuando. Mas há ainda factos mais recentes e mais significativos (negativamente) no Sínodo da Ásia.
A este propósito, pergunta o editor do conceituado semanário católico Inglês THE TABLET em 6 de Junho de 1998 após a conclusão do Sínodo da Ásia, que, segundo ele próprio diz, foi um dos mais bem sucedidos: “ P orque então o tão espalhado sentimento de desilusão quanto a estes sínodos?” Relembrando que P aulo VII os instituiu em 1965 para serem como que uma continuação da experiência colegial de Vat. II, explica o distinto editor: “The bishops attending the council came into their own as the college which governs the Church, under the leadership of the pope, and put the Curia in its correct place as a civil service whose task is to assist, not to dominate. Compare the council and the synods, and one sees that at the former the bishops were free, whereas at the latter they are controlled….”
O P e. John P rior, como testemunha directa, faz uma análise do Sínodo da Ásia e expõe todos os mecanismos bastante indesejáveis de controle no regulamento actual da preparação e da realização dos sínodos, e da sua execução durante o Sínodo da Ásia. (artido em VIDYAJYOTI, Set. 1998) . P oupo aos meus leitores todos estes detalhes.
Só sublinho o “comportamento” misterioso dos computadores do Vaticano: “Whenever the computer came across a proposal from one of the bishops' groups urging for more autonomy, for freedom, for true collegiality, for trust, or was critical of the Vatican Curia, or praised the work of the Asian theologians, the proposal was automatically erased by an anonymous virus! The term ‘Asian churches' became ‘the Catholic Church in Asia ', ‘other Christian churches' was changed to ‘other Christian confessions'. Words deemed untheological like ‘subsidiarity', ‘decentralisation', ‘deregulation' and ‘democracy' were all erased without discussion. The final propositions move from local Church (diocese) directly to Universal Church ( Rome ). All proposals on enhancing the authority of Episcopal Conferences disappeared. The one form of collaboration between local churches that survives is mutual help through prayer and finance (No. 14). It, surely, would have been extremely rewarding if the different theologies of the curia and the majority of Asian bishops were brought out into the open and discussed. That was not to be. Without a word, FABC theology was subsumed into official ideology.”
CONFIANÇA : atmosfera necessária para a Inculturação adentro da Unidade
Na velha situação a gente sentia-se mais segura.
Mas onde é que o Evangelho promove “segurança” mesmo “religiosa” como um valor a ser cuidadosamente guardado pelos discípulos de JESUS?
Ele inculca e exige a confiança - uma confiança total, absoluta, no P AI e no Seu Ungido JESUS, na condução do Seu ES P ÍRITO. A multiplicação de leis e o rigorismo legal, como claramente demonstrou JESUS, revelam um medo fundamental e matam a liberdade dos filhos de Deus, dom do ES P ÍRITO. A nossa segurança está não em controle e manipulação mas nas promessas de JESUS, na presença e assistência do Seu ES P ÍRITO. Este com a Sua acção é imprevisível, sim, mas sempre digno de nossa plena confiança! Confiança no ES P ÍRITO gera confiança um no outro, confiança entre os membros duma mesma Igreja, entre as várias igrejas locais, entre Roma e as Igrejas locais.
É neste contexto de confiança que se deve promover a exigência evangélica de “ Inculturação ”.
Haverá erros? Certamente, como sempre os houve desde o primeiro século do Cristianismo, como os houve nos peritos do Ocidente e nos grandes Luminares da Igreja do Ocidente. Numa atmosfera de confiança e de diálogo é muito mais fácil mostrar e corrigir erros. E o ES P ÍRITO está lá sem nunca nos largar!
Cristandade “nova” ou cristandade “velha” transplantada?
Reconheço com gratidão todos os grandes benefícios que temos recebido do Ocidente e evoco sobretudo neste momento os imensos sacrifícios dos missionários de várias nacionalidades que ofereceram a sua vida pelo nosso país. Mas, por outro lado, devo dizer: tão habituados estamos ao estado de coisas nesta nossa “Roma do Oriente”, que não nos damos conta do que falhou grandemente na missão da Igreja.
O que segue neste parágrafo está bem desenvolvido pelo eminente Jesuita de origem Goesa
P e. P armananda Diwarkar no seu livro “Monsoon of the Spirit” .
A Igreja Latina era não só estrangeira cá na Índia e formada em moldes ocidentais, mas uma “velha” cristandade que crescera e se tornara plenamente “adulta” através de séculos de desenvolvimento na Europa. Em Goa como em outros centros mais afectados por estes 5 séculos de missionação pela Igreja Latina desde o descobrimento do caminho marítimo para a Índia, o que temos não é uma Cristandade nova , mas uma transplantação da velha cristandade europeia. As nossas cristandades não se desenvolveram passo a passo como um organismo vivo desde a primeira célula. Saltaram-se as etapas e assim produziu-se grande perda de vitalidade e consequentemente a infertilidade. Foi uma árvore já crescida que foi transplantada para o solo da Índia.
Não nos contentemos com mostrar as nossas diversas actividades, o prestígio das nossas instituições que são reprodução do Ocidente.
Que temos de original?
- De todas as formas possíveis, a começar pelos nomes e apelidos (por uma errada concepção do que significava “fazer cristãos”), desarreigaram-se os novos cristãos do seu meio social-cultural-religioso e perdemos imenso com esta “ policy ” que resultou da mentalidade religiosa e do contexto político dos séculos passados, mas com que não podemos minimamente concordar hoje.
- Que são as nossas igrejas em Goa, senão uma transplantação do Ocidente, mesmo de Roma?
- Onde estão as obras de arte como as que a Fé Cristã inspirou e produziu no Ocidente em todos os ramos?
- Um Angelo da Fonseca com as suas telas de temas cristãos em arte indiana só surgiu em meados do século XX, e seguiram-se outros depois dele.
- Em comparação com o Ocidente, onde está a poesia cristã em Concani inspirada do Mistério da nossa Fé?
O Jesuíta Inglês Thomas Stephens foi neste ramo um verdadeiro pioneiro com o seu épico Khrista P urana (em Marata) moldado sobre as escrituras hindus para alimentar a fé dos convertidos brâmanes em Goa habituados às suas escrituras em Marata. Mas lá ficamos...
- Onde estão (nos anos pre-Vat. II) os cânticos adaptados à liturgia eucarística e às várias quadras do Ano Litúrgico?
- Onde refulgem os luminares nativos - Mestres em Teologia e S. Escritura?
Hoje sim, na Índia e no resto da Ásia, temos nestes campos, apesar de tantos factores que militam contra eles, homens de valor universalmente reconhecidos como tais. Mas nos séculos passados ....???
- Onde estão os heróis oficialmente reconhecidos como “Santos”?
Em Goa temos o P adre José Vaz, missionário do Ceilão (hoje Sri Lanka), apóstolo gigante e original que salvou e fortificou a Cristandade católica dessa Ilha muito perseguida pelos Calvinistas holandeses! Venerado pelo povo como santo desde ainda a sua vida (1651-1711), foi beatificado só em 1995!... Somente um a ser reconhecido como heróico discípulo de JESUS em 500 anos?! P odemos crer que o ES P ÍRITO não levou ao heroismo tantos que aceitaram JESUS e o Seu Evangelho?...
Não entro nos outros detalhes dos maus efeitos deste desarreigamento dos convertidos do seu milieu social e religioso. Não terá tudo isso sido fruto duma compreensão muito deficiente do Evangelho e das suas exigências? Não será fruto sobretudo da maneira de ser adoptada pela Igreja na sua hierarquia? Reconhecer humildemente esta grave falha só nos ajudará a marchar corajosamente para o futuro ao longo duma nova senda, já indicada por Vat. II.
Acção do ES P ÍRITO nos adeptos de outras religiões
Quereremos ver a situação na Ásia sob a luz que o ES P ÍRITO nos dá sobretudo desde Vat II? Aqui na Ásia vivemos num contexto pluri-religioso, com cada uma das grandes religiões contendo doutrinas bastante nobres e tendo guiado e alimentado seus adeptos durante séculos, levando-os para Deus. Muito mais do que nos séculos anteriores a Igreja oficialmente, e muito mais os seus peritos e mesmo os simples fiéis, chegam a ver e admirar a acção do ES P ÍRITO nessas religiões e na vida dos seus adeptos. Que sede de Deus! Que vida de comunhão com Ele, que vidas mesmo heróicas de abnegação pessoal, de caridade e sacrifício pelos outros!
Se assim é, a Inculturação levaria os discípulos de JESUS a reconhecer, admirar e absorver toda essa riqueza espiritual, e neste clima de fraterna amizade compartilhar com esses irmãos a Riqueza que para nós é JESUS e o Seu Evangelho!
O Diálogo inter-religioso torna-se neste contexto uma exigência evangélica, intimamente ligado à própria Inculturação , e não simplesmente um meio pedagógico de pregar JESUS CRISTO a essas massas.
Inculturação e Diálogo: o ES P ÍRITO urge!
O ES P ÍRITO inspira, impele, urge... Colocando-nos unicamente adentro da missão que JESUS RESSUCITADO nos confiou no mundo, na sociedade, a inculturação e o diálogo , compreendidos como acima procurei mostrar, são a maneira característica de vivermos cá na Ásia a nossa vocação de Cristãos (EA 3) . Sobretudo porque cremos e proclamamos que a Igreja é “católica”, universal, na sua identidade, missão e serviço, portanto abrangendo todas as populações que constituem a imensa e complexa diversidade deste continente.
- Se o Diálogo é a maneira de ser e agir de Deus e de JESUS, como pode ele deixar de ser a nossa maneira de ser e agir?
- Se a Inculturação é precisamente a maneira como o Filho de Deus entrou no nosso mundo, como pode ela deixar de ser a nossa maneira de entrar e viver na sociedade em que a P rovidência nos coloca ou para a qual nos envia?
Diálogo que espontaneamente fluí da Inculturação.
Inculturação que promove o Diálogo e a transformação gradual da sociedade.
Diálogo com as ricas culturas e religiões Asiáticas, com as suas populações marcadas pela pobreza e mesmo pela miséria, com os grupos oprimidos e frequentemente marginalizados - significa falar, escutar e agir de mãos dadas; assim ir vivendo “ inculturadamente ”, construindo relações e criando, fortificando e transformando a comunidade.
Como bem resume um brilhante reformador hindu Narayana Guru: “Do not debate and defeat; but know and make known” (citado por Arc. Menamparampil, no dito artigo) .
Nós, discípulos de JESUS, não somos membros dum clube de debates com membros doutras religiões e culturas, procurando lançar uns contra outros definições e argumentos, provas e contra-provas. Com a missão que nos foi confiada por JESUS no mundo, quereremos ansiosamente enriquecer-nos com a divina riqueza encerrada nas tradições religiosas e culturais do nosso povo, ainda dos que julgamos os mais atrasados.
Ao mesmo tempo procuraremos dar sem espalhafatos, humildemente, fraternalmente, aos nossos irmãos e irmãs deste continente o testemunho vivido da nossa Fé em JESUS, nosso Irmão e Salvador , nossa experiência de vidas paulatinamente transformadas pelo ES P ÍRITO DE JESUS RESSUSCITADO que vive em nós. Será este um testemunho que, no plano divino, ajudará por seu turno a purificar essas tradições do que está viciado nela, contrário à vontade divina para a nossa sociedade.
É só assim que poderemos, segundo a expressão muito significativa do Arcebispo Thomas Menamparampil:
“Whisper the Gospel to the Soul of Asia ”
“Segredar o Evangelho à Alma da Ásia”
sempre profundamente sequiosa de Deus.
Como JESUS aos que queriam segui-Lo diremos sómente com humilde e fraterno Amor:
“Vinde e vede...
Caros amigos,
Acabamos de ler as opiniões do Rev. Thomas Justus Lopes (de Souza), sacerdote da Arquidioce de Goa. Ela é, evidentemente, a sua opinião pessoal sobre o assunto que nos ocupa.
E do P adre Jesuita Vasco do Rego, há longos anos ao serviço desta nossa Arquidiocese. Ele vos diz como preferiu dar, para quem quisesse conhecer mais a fundo, o contexto da Inculturação adentro da Fé Cristã.
P or isso mesmo tinha de focar vários aspectos provavelmente menos conhecidos deste ponto muito importante e mostrar as exigências do mesmo para nós Cristãos. Não podia fazê-lo sem apontar também as falhas havidas adentro desta mesma visão, e as aspirações para o futuro.
A conclusão a que podemos chegar é que Jesus veio ao Mundo com a sua Mensagem para a sua Igreja ser UNIVERSAL, adaptável a todas as culturas.
E foi isto que P aulo defendeu no “Concilio de Jerusalém” : Jesus viera com o dom divino da salvação, de vida nova, não só para os Judeus, mas também para os chamados “pagãos”. E tendo o Concílio aprovado o seu princípio e a sua maneira de agir, de “evangelizar”, lá foi ele calcorreando de Jerusalém a Atenas e a Roma, passando por várias regiões. E o Apóstolo Tomé veio à nossa Índia. Eles nos inspirem agora a marchar para a frente, corajosamente, generosamente.
E com esta mensagem dou por encerrado este diálogo.
Contudo, se alguns dos recipientes desejar manifestar a sua opinião, será bem-vindo.
Fernando do Rego.
(Na correspondência de Fernando Rego, ele acrescenta que enviou anexado: algumas telas do afamado pintor Goês ANGELOFONSECA, “inculturando” cenas da Revelação Cristã (quatro passagens da Bíblia) exibindo-as nas suas telas segundo as exigências da arte tipicamente indiana.
Certamente, vieram após ele mais artistas Goeses como Ângela Trindade, bem como de muitas outras partes da Índia, que têm dedicado o seu talento artístico para este belo apostolado ? evangelização pela arte.
Há também muitas congregações religiosas através da Índia que se têm dedicado a esta missão de várias maneiras, como tem sido feito pelas “Missionárias Franciscanas de Cristo Rei”, as primeiras que na Índia adoptaram como seu uniforme de religiosas, desde a sua fundação (1937), o nosso sari indiano. Este passo foi então, mesmo sem nenhum espalhafato, um passo de gigante. Agora temos também, entre várias outras, as muito conhecidas “Missionárias da Caridade” da Madre Teresa.
Aqui, em Goa, a SOCIEDADE MISSIONÁRIA DE SÃO FRANCISCO XAVIER (s.f.x.) tem sido, em certo sentido, uma pioneira na inculturação nas várias regiões em que exercem a sua actividade missionária.
Há uma outra faceta da inculturação que tem de ser mais activada em Goa: os missionários latinos ( P ortugueses e Espanhóis), mais do que os Ingleses e outros, tiveram empenho, numa interpretação errada do que vinham pregar, em mudar radicalmente os nomes dos neo-convertidos.
É por isso que eu levo o nome de Fernando do Rego.!! Quando um dos meus antepassados hindús se converteu, por convição ou à força, o seu nome e o seu apelido foram mudados. P orquê? Senão para dividir e imperar?! Sabemos que vinham, mesmo com imensos sacrifícios, para evangelizar A.M.D.G.. Contudo o resultado foi que os missionários fracturaram até a nossa sociedade diferenciando-a até nos nomes, fruto da mentalidade político-religiosa dos séculos passados.
A desejada mudança está a ser feita gradualmente, embora até aqui poucos leigos entre nós vejam o alcance dela. Cito-vos somente um exemplo: o P e. Roque Correia Afonso s.j. foi um dos mais distintos Jesuítas Goeses desta geração. Ele estudou profundamente este problema e depois mudou o seu nome para P ARMANANDADIWARKAR. Muitos outros sacerdotes, em especial Jesuítas , têm feito o mesmo, como o P e. P RATA P NAIK s.j., Director do “THOMAS STE P HENS KONKNNI KENDR (Centro ConcaniThomas Stephens)
P rocurando compartilhar neste movimento, a Aurea, minha esposa, e eu nós demos aos nossos filhos nomes indianos: Arvind , Sunil, Waheeda e Vivek.
E termino agradecendo a todos os participantes neste diálogo, bem como a todos os Recipientes do mesmo ) Fernando Rego
&&& &&&
P rof P adre Teotonio R. de Souza responde ao P adre Vasco do Rego 30.03.05
Caros participantes neste "diálogo" venho por este meio agradecer o meu velho "guru" desde os tempos do seminário de Rachol, e também durante os meus 26 anos na Companhia de Jesus, por ter partilhado neste fórum a sua experiência e compreensão da "encarnação" inculturada de Jesus Cristo.
Os esclarecimentos acerca dos conceitos de "inculturação" e "diálogo" acho que são vitais. Fica porém na vida real e na longa história a dúvida existencial: Será que o "Espírito Santo" prometido e enviado precisa de submeter-se à tanta manipulação "imperial", "colonial", etc. etc.? A frase "certamente ninguém vai manter que o ES P ÍRITO SANTO limita a Sua inspiração aos compositores desses textos antigos ou de textos novos compostos em Roma ! " no texto do P e. Vasco do Rego, fez-me lembrar aquilo que um P rovincial jesuíta de Goa dizia comentando jocosamente sobre "Acta Romana" (Revista com documentos oficiais e comentários oficiais): Romak agtat ani amkam daddtat ! [Fica assim para o entendimento dos que têm o "dom de línguas", também um dom de Espírito Santo]. P ode ser uma actividade "vital" para os interesses "romanizantes" do Ocidente, mas continuam a prejudicar o Cristianismo pós-Cristico!
Todas as explicações ao contrário parecem fugas de responsabilidade, sempre interpretadas com referência às tentações de Jesus, para apaziguar e "aliviar" as dores dos que sofrem, mas pouco fazendo de concreto para pôr fim aos abusos dos poderosos. P arece ser uma versão espiritual da política definida como "arte / ciência de atingir o que é possível (e não o ideal) na altura.
Como historiador (também da Igreja, e tive oportunidade de ensinar a história do Cristianismo durante alguns anos nas duas maiores instituições jesuítas de formação teológica na Índia) não queria deixar de salientar a importância de analisarmos a responsabilidade política dos dirigentes da Igreja (será que é ainda necessário para o Espírito Santo ter uma sede "estatal" na Europa e com representação nas Nações Unidas?).
São desabafos de um historiador que não deixa de ser um crente comprometido na mensagem da Incarnação de Jesus Cristo, mas com muitas dúvidas acerca da credibilidade das suas manifestações históricas . Enquanto Director do Xavier Centre of Historical Research promovi dois seminários internacionais para analisar estas questões. Ficaram dois volumes publicados para quem tenha interesse em aproveitar as reflexões de muitos teólogos e historiadores jesuítas e leigos sobre o tema aqui em discussão:
Jesuits in India: in Historical P erspective , Macau, Instituto Cultural de Macau & Xavier Centre of Historical Research, 1982, pp. 415
Discoveries, Missionary Expansion and Asian cultures , with Foreword by Gregory Naik, S.J., New Delhi, Concept P ubl. Co., 1994.
Teotónio R. de Souza
http://campussocial.ulusofona.pt/
“ Não há liberdade sem verdade. (…) A liberdade é uma categoria ética”
( P apa João P aulo II in Memória e Identidade, 2005)