A notícia que inspirou os diálogos_lusófonos pode-se ler nos endereços
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=45541
http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2007/03/21/295013579.asphttp://ultimosegundo.ig.com.br/bbc/veja_mais/noticias.html?ini=4http://www.tiosam.com/enciclopedia/e.asp?title=MAPA&artigo=mapa&link=Mapahttp://www.bussolaescolar.com.br/mapas/mapa_australia.htmhttp://www.estadao.com.br/ciencia/noticias/2007/mar/21/237.htm
Margarida Castro escreveu
Dr Chrys Chrystello, australiano com ascendência portuguesa
A propósito do assunto que circulou no grupo saudades-sefarad, suponho que já foi exposto, aqui, pela Prof. Graça Cravinho [ver abaixo a mensagem em inglês]. Trata-se de uma peça de cerâmica antiga, e o Prof. Dan Dwyer, da Darwin's University, pediu ajuda a arqueologistas portugueses especializados em ceramicas antigas portuguesas. A peça de cerâmica encontrada data do século XVI.
Tem idéia deste assunto?
Margarida
Graca Cravinho escreveu
To: saudades-sefarad@yahoogroups.com
From: "Graca Cravinho" <graca.silvaster
Date: Sun, 25 Mar 2007 13:05:49 +0100
Subject: [saudades-sefarad] Australia
Sometime ago, I sent to Rufina this picture. Prof. Dan Dwyer, from
Darwin's University, was asking for help from the Portuguese
archaeologists researching on ancient portuguese ceramics, as the jug
had been dated to XVI cent. (+- 80 years) by a physics process
(termoluminescencia).
Graça
Dr Chrys Chrystello escreveu
SIM, MAS NA ALTURA NÃO SURGIU NINGUÉM A DAR A SUA OPINIÃO. Eu pessoalmente não conheço ninguém dessa área...
Chrys
Margarida Castro colocou
To: dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br
Sent: Friday, March 23, 2007 1:01 PM
Subject: [dialogos_lusofonos] Mapa sugere que português descobriu Austrália em 1522» Doutor Carl von Brandenstein e Dr Chrys
Porque a história nos leva ao passado e a perspectivar o futuro continuemos a estudar ...e a ouvir o que outros informam.
Sobre o assunto "Mapa sugere que português descobriu Austrália em 1522", e a matéria publicada recentemente na Folha de S Paulo, o
Prof. Jaime Ramalhete Neves escreveu :
Cara Margarida,
Tudo bem...
Não tiro aos ingleses o facto de terem colonizado a Austrália e de terem dado ao mundo um significado especial para canguro, que nas línguas indígenas significa "não percebo".
Apenas queria focar que a investigação levada a cabo pelo Doutor Carl von Brandenstein, linguista e antropologo, feita já há algum tempo, ganha um reforço com a história recente desse mapa que foi interpretado:
1. A designação de JAVA GRANDE ou GRANDE JAVA é algo que hoje aponta para um referente impreciso;
2. A história do mapa, mal desenhado para os olhos de hoje ou mal referido, é um facto recorrente na cartografia dos s. XV, XVI e às vezes XVII.
Cito como exemplo o conhecido primeiro mapa de Portugal (http://www.marinha.pt/extra/revista/ra_fev2001/pag35.html ) em que a costa leste, a do Atlântico, está voltada no suporte, não sei se de pergaminho se de papel, para o alto da página que, correntemente, é utilizado para referir o norte.
Numa representação da Coreia, como península, está escrito ilha dos ladrões. Na cartografia francesa posterior aparece desenhada a Coreia como ilha quando a tal Ilha dos Ladrões era uma ilha ao sul da Coreia, a ilha de Cheju, na rota entre a China e o Japão, numa altura em que as relações entre estes dois países se fazia à base de pirataria, dado que as ligações diplomáticas não funcionavam.
Por vezes até as legendas são extremamente difíceis de decifrar, como no caso de alguns cartógrafos portugueses, cujas anotações me parecem ser escritas, em alfabeto latino, da direita para a esquerda.
Vou juntar em separado um mapa de África, desenhado por chineses.
Só queria, por um lado, referir a validade dos trabalhos do Doutor Carl von Brandenstein com quem me correspondi no início dos anos 90 (ignoro se ainda é vivo...), linguista e antropólogo. Realizou um trabalho notável em pesquisa de campo na qual envolveu criteriosamente a antropologia e a linguística histórica. Com quem eu quis confrontar a minha metodologia ao identificar topónimos sino-coreanos em Fernão Mendes Pinto. O tal que mentia...
Por outro, referir a agudeza de espírito de Agostinho da Silva ao empregar a expressão "português à solta" para identificar viajantes ou descobridores portugueses desses séculos. Tão soltos que hoje contar-se-ão pelos dedos aqueles que permanecem no "jardim à beira-mar plantado", que não se soltaram e conhecem esta problemática.
Mas sobre os que se soltaram recentemente ( a emigração portuguesa aumentou significativamente nos últimos anos...) não quero deixar de citar as palavras do Prof.Dr. Chrys Chrystello, que só conhecia de referências nos diálogos lusófonos, quanto àquilo que afirmou na palestra apresentada na Sociedade de Língua Portuguesa, em 1999 e que vem na net: o que ele refere quanto à Austrália, verifiquei eu noutras partes. Um homem com os pés assentes na terra, expressão caracterizante que utilizei em relação a Rúben de Carvalho...
Quanto a Ricardo Bonalume Neto, ele tem uma visão do problema, como possivelmente terão muitos portugueses, que tem a sua parcela de verdade, mas que não deixa de ser uma visão parcelar, histórica e cientificamente incorrecta.
Mas toda esta questão vai levar-me a uma nova leitura da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Do que encontrar, se encontrar, darei parte aos diálogos lusófonos.
Saudações lusófonas!!
Jaime Ramalhete Neves
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Dr Chrys Chrystello escreveu
À ATENÇÃO DE TODOS EM PARTICULAR DO PROF. RAMALHETE NEVES
o texto completo a que a palestra da Sociedade de Língua Portuguesa/ SLP se reporta foi publicado na íntegra em “The Yawuji Barra and The Yawuji Baía (Os Avós de Barra e os Avós de Baía”, Revista Agália #781-82 Galiza http://www.agal-gz.org
e na página do Dr Luciano da Silva http://www.dightonrock.com/
O texto na totalidade, que tem sido alvo de várias apresentações em conferências nacionais e internacionais, resulta do trabalho de divulgação de duas pessoas com quem lidei, me correspondi e de quem guardo um enorme respeito KENNETH MCINTYRE E GEORG VON BRANDENSTEIN , ambos infelizmente desaprecidos do nosso seio há uns anos.
A nova obra que ora surgiu a lume (e que ainda obviamente não li) de Peter Triickett, vem dar uma nova versão ao que Kenneth McIntyre já tinha escrito há 3 décadas no seguimento duma velha teoria de George c. Collingridge no início do século passado
Nota: Kenneth Gordon McIntyre, OBE, MA, LL. B (Melb), Comendador da Ordem do Infante, nasceu em Geelong, nos arredores de Melbourne, estado de Vitória, sendo Leitor de Literatura Inglesa na Universidade de Melbourne, entre 1931 e 1945, tendo-se dedicado, a partir daí, a uma bem-sucedida prática de advocacia, sendo Assessor do Governo em assuntos legais, e Presidente da Câmara Municipal de Box Hill. Sempre interessado na Língua e Literatura Portuguesas, dedicou a sua reforma ao estudo de antigos documentos portugueses. O primeiro resultado deste labor foi “A Descoberta Secreta da Austrália” publicado pela Souvenir Press, 1977, no qual prova que os primeiros europeus a descobrirem a Austrália haviam sido os Portugueses no século XVI e não o Capitão Cook que apenas atracou em 1770. Graças a este livro o General Ramalho Eanes (então Presidente Português) concedeu-lhe a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, o navegador. Faleceu em Maio 2004 pouco antes de completar 94 anos.
A lista dos historiadores que, finalmente, se decidiram a aceitar a teoria de que os portugueses descobriram a Austrália (antes de outros europeus) vem a aumentar desde que, em 1977, McIntyre publicou o seu livro. O Prof. Geoffrey Blainey (célebre historiador) admite-o no seu livro “A Land Half Won” (“Uma Terra Meia Conquistada”). T. M. Perry, leitor de geografia da Universidade de Melbourne, no seu livro “A Descoberta da Austrália”, e o Prof. Russel Ward, na sua obra “A Austrália Desde a Chegada do Homem (Australia since the coming of man) ” admitem igualmente esta “descoberta” da Austrália, aceitando a tese de que a descoberta da Austrália pelos portugueses, antes de 1536, foi, “uma possibilidade, uma probabilidade, uma verdade conclusiva”. Na prática, porém, o Capitão James Cook continua ainda a ser tema da descoberta da Austrália em muitos livros escolares.
McIntyre, K G, The Secret Discovery of Australia: Portuguese Ventures 250 Years Before Captain Cook, Pan Books, 1982.
ISBN: 0330270338 :
o meu trabalho (inicialmente efectuado como jornalista e não como amador de coisas históricas portuguesas) vem na sequ~encia de vários artigos originalmente publicados na revista Nam Van, Macau, #4 de 1 de Setembro de 1984, na revista "Macau", #10 de Abril de 1988, Este trabalho segue igualmente trabalhos do Prof. Dr. Carl von Brandenstein. Ao texto base, revisto, editado e compilado, foram acrescidas, anotações, dados de pesquisa e investigação e explicações descritivas.
Chrys Chrystello
Chrys CHRYSTELLO,
An Australian in The AZORES/Um Australiano nos Açores, Portugal –
drchryschrystello1@gmail.com
drchryschrystello@sapo.pt
http://oz2.com.sapo.pt
Escrever é fácil: comece com uma maiúscula e termine com um ponto final. No meio, coloque ideias.
It is easy to write: you start with caps and end with a full stop. In the middle you put the ideas.
(Pablo Neruda)
Escreveu Fernando Pessoa, na única obra em prosa que dele conheço ("Obras em Prosa", Círculo dos Leitores, III vol., pg.292): "Somos um grande povo de heróis adiados, partimos a cara a todos os ausentes...somos incapazes de revolta e agitação...".
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Margarida Castro escreveu
To: dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br
Sent: Friday, March 23, 2007 5:27 PM
Subject: Re: [dialogos_lusofonos] Mapa sugere que português descobriu Austrália em 1522 » Dr Chrys
Dr Chrys Chrystello
Mas o seu trabalho além de ter sido "efectuado como jornalista e mais tarde como amador de coisas históricas portuguesas" também se se deve aos seus antepassados portugueses. Estou certa ou errada ?
E já agora mais uma pergunta: é lusófono ou lusófilo?
Saudações,
Margarida
Dr Chrys Chrystello escreveu:
To: <dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br>
Date: Fri, 23 Mar 2007 18:49:23 -0100
Subject: Re: [dialogos_lusofonos] Mapa sugere que portugu
ês descobriu Austrália em 1522 » Dr Chrys
Claro Que sim Margarida, tenho imenso orgulho nas minhas raízes portuguesas (quer por parte paterna, quer pela parte materna...
Sou lusófono antes de ser lusófilo
Aproveito para deixar aqui uma pequena homenagem aos meus antepassados transmontanos do lado materno que recentemente re-descobri ao trabalhar no livro CANCIONEIRO TRANSMONTANO 2005 e ao viver 3 anos em Bragança
NOTAS DO AUTOR:
Antes de mais quero agradecer ao Dr. Eleutério Alves, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Bragança, por ter tido a visão e a confiança para me deixar elaborar este Cancioneiro. Já no passado, em 1985, a ele coube o sonho de lançar a primeira edição desta obra. É igualmente devido o nosso reconhecimento ao Dr. Eduardo Alves da SCMB, e a Sandra Rocha, (Estagiária do 5º ano Trabalho Social da UTAD – Pólo Miranda do Douro) o nosso muito apreço pelas recolhas efectuadas dentre os utentes da Santa Casa, bem como ao Professor Luís Canotilho que nos ilustrou o livro.
Embora já desaparecido do nosso convívio (27 de Maio 2004) não quero deixar de mencionar, hoje, José Augusto Seabra, meu mentor intelectual e colega de várias iniciativas, que nos últimos três anos foi o patrono dos Colóquios de Lusofonia realizados em Bragança. Foi ele que sempre teve o estímulo certo para os momentos de desânimo, e as palavras de incentivo rumo a uma utopia alicerçada nos seus múltiplos saberes. Foi no seu reinado como ministro da Educação que deu o aval ao Politécnico de Bragança, onde ainda proferiu a Oração de Sapiência em 2003. José Augusto Seabra, um literato no mais amplo sentido, um homem das Letras, um republicano indefectível na senda dos verdadeiros republicanos da Iª República. Como Embaixador promoveu a Língua e a Cultura portuguesas de forma ousada e inovadora nos países onde exerceu; como director da Revista Internacional de Língua Portuguesa das Universidades da CPLP, editou-a com o labor e a minúcia de quem ama a língua. E falo desse homem pois foi graças a ele que aprendi a importância desta terra que em tão pouco tempo me soube cativar, despertando em mim heranças transmontanas obnubiladas e laços de coração e sangue que eu olvidara. Sim, esta terra que me acolhe como quem trata um filho emérito, soube adoptar-me engalanada nas suas belezas que contrastam com a agrura excessiva do seu clima.
A sua qualidade de vida faz corar de inveja os habitantes das grandes urbes portuguesas pois, Bragança, dispõe hoje de bons e modernos equipamentos urbanos, de um tecido social coeso ainda que diverso, e de uma vitalidade sustentada durante a maior parte do ano por mais de 6000 estudantes do ensino terciário e outros tantos do secundário. A atmosfera está cheia de contrastes da sua rica história, do seu comércio tradicional e do mais recente.
Tudo isto serve para me encher de orgulho por viver aqui, nesta antiga Cidade de origem neolítica, posteriormente um importante centro romano localizado na zona actual da Sé. Às invasões bárbaras sucederam-se as guerras entre mouros e cristãos que tantas tradições orais deixaram como podemos apreciar neste volume. Essa Bragança primitiva desapareceu permanecendo enterrada até hoje, conforme recentes escavações do programa Polis demonstraram, com inúmeros vestígios que hoje podem ser observados em exposição.
Dentre as lendas mais antigas da cidade está a da visita de S. Francisco de Assis que, aqui parou quando ia em peregrinação a Compostela e fundou o mais antigo convento franciscano em Portugal. O Santo de Assis nunca veio à Península, mas é muito verosímil que o convento franciscano de Bragança esteja relacionado com um albergue para peregrinos de Compostela, que já existia no séc. XII. Essa função de escala no Caminho de Santiago pode ajudar a compreender a fixação de uma importante colónia de judeus, cuja actividade foi decisiva para o desenvolvimento económico da região.
A paisagem é rude e bravia, e numa abordagem fugaz dir-se-ia que aqui só há fraguedo. Mas numa das mais importantes revoluções pacíficas que aqui ocorreram, os judeus plantaram amoreiras nos interstícios dessas fragas e nos séc. XV e XVI, conseguiram o milagre de fazer de Bragança um importante centro manufactor de veludos, damascos e outros tecidos de luxo.
Noutro extremo menos agradável, a Inquisição mostrou-se particularmente activa em Bragança. Vitimou, ao todo 734, artesãos segundo os números averiguados pelo sábio Abade de Baçal. Naturalmente, nem todos se deixaram apanhar e a maioria (três mil artesãos) fugiu. Os teares fecharam, a produção dos belos veludos de Bragança cessou por completo e a terra conheceu um longo e sombrio período de decadência.
A Bragança de hoje é irmã gémea da outra celta e romana, dela tendo herdado costumes, língua e artesanato, sempre marcados pela sua importância militar e estratégica mas sem jamais perder as suas raízes rurais, e reza uma importante lenda que na Igreja de S. Vicente, se casou clandestinamente o príncipe e futuro Rei D. Pedro com a dama castelhana Inês de Castro, tema da literatura portuguesa e universal.
Neste volume pretendemos fazer ouvir a nossa voz, através das memórias do passado para que não desapareçam as lendas e tradições que permitiram a Bragança ser uma terra onde se congregam esforços e iniciativas para manter viva a língua de todos nós, sob o perigo de soçobrarmos e passarmos a ser ainda mais irrelevantes neste curto percurso terreno.
Quando aqui cheguei em 2003, sabia apenas que havia fortes laços de sangue que me prendiam a esta região. Com um avô materno Vimiosense há séculos, uma avó materna e uma mãe alfandeguenses, recordava daqui as férias de infância passadas em terras da vetusta região de Bragança e Miranda. Havia primos e tios avós que contavam histórias de outros tempos, e tinham um falar diferente.
Aprendi a liberdade de passear pelos campos até ao pôr-do-sol, montado numa burra ou num macho, sem peias nem fronteiras, por montes e vales, inspirando este ar puro, experimentando detalhes desconhecidos da natureza que a minha juventude urbana desconhecia. Em casa ainda não havia luz eléctrica que essa só chegaria depois do 25 de Abril, mas os campos já estavam plantados de postes de alta tensão. Das vindimas à apanha da amêndoa muitas foram essas recordações que recuperei. Lembro-me de ver como no céu havia estrelas em número inaudito, estrelas que jamais se podiam observar nas poluídas abobadas das cidades portuguesas. Lembro-me do cheiro a feno na Eucísia, do chiar dos carros de bois no Azinhoso, dos cortejos pascais engalanados com as colchas penduradas nas pequenas janelas como seteiras abertas em paredes de grossa espessura. Lembro-me dos burricos e dos seus cântaros saltitantes a caminho da fonte, dos jantares à luz da vela e do sempre presente petromax. As cavilhas na central telefónica do Sendim da Ribeira com doze números de telefones que se ligavam à venda onde tudo se comprava. E havia ainda as celebradas danças no salão dos bombeiros, e as festas típicas em honra do santo da aldeia, onde conheci um povo que desconhecia.
Na pequena e ora semi-despovoada aldeia da minha avó materna encontrei os rituais senhoriais da família Gama do engenheiro Camilo Mendonça onde se ia prestar vassalagem quando ali chegávamos para férias, ansiosos de beber a fresca água da Grichinha, fonte milagreira em plena terra das feiticeiras. Revisito a imagem bucólica do Vale da Vilariça antes da barragem, quando da varanda de casa me deleitava com ela enquanto devorava os livros de Jules Verne.
Vi rostos e tradições do tempo dos Cristãos Novos, ainda hoje envergonhados da sua herança marrana. Há cinquenta anos, ainda existia a vergonha de se dizer que se descendia dum abade, cónego ou padre, tão comum a tantas famílias da região, numa mescla de respeito, medo e veneração ao cristianismo que se impusera primeiro aos mouros da rica Alfandagh, para depois ser temporariamente substituído pelos judeus que fizeram desta uma zona bem rica, antes de sofrerem os efeitos da conversão forçada e a clandestinidade, quando não a morte, o exílio ou a Santa Inquisição.
Conheci capelas, vi santos milagreiros em altares cobertos de ouro, andei em procissões e fui a missas onde os importantes da terra tinham as suas cadeiras próprias reservadas em pleno altar. Tomei banho em tanques improvisados e provei frutas desconhecidas. Fiquei sempre com esta recordação destas terras e destas gentes e ela me acompanhou no périplo de mundos e na diáspora que me levou a passar metade da vida no Sudeste Asiático e na Australásia. Essas eram, aliás, as únicas recordações agradáveis que levava do país onde cresci. Eram tão importantes que as utilizei numa entrevista em 1989 para dizer na Austrália como era belo este país de bons vinhos e boas comidas, e paisagens variegadas. Lembrava-me dos fraguedos de Penas Roias (onde fora pela primeira vez em 1962 num jipe dum primo), e da famosa arca do cura dessa aldeia esquecida, onde só regressaria no conforto do alcatrão em 2004.
No Vimioso percorri as ruas onde o meu avô crescera, vi a casa onde a família habitara que permanecia altiva e brasonada. Em Alfândega da Fé revi os jardins e os parques e as memórias dum castelo que a minha mãe sempre referiu nos idos da memória. Recordei as viagens longas e inesquecíveis pelo Douro acima, em comboios que a estupidez do homem mandou retirar dos carris trocando-os por alcatrão.
Recordo com emoção os jantares feitos à lareira, em tachos negros como a noite, e onde os sabores eram bem diferentes. Depois do jantar, sentados no escano, imaginávamos figuras misteriosas que o fogo e as sombras criavam, antes de nos confrontarmos com o medo de regressarmos aos quartos, atravessando enormes salões onde a chama bruxuleante da vela nos desenhava os demónios de que a catequese nos avisara. Mas, mais terríveis ainda eram as trovoadas em plena época das sezões, quando na Quinta da Bendada (hoje em ruínas e não mais pertença da família) nos anichávamos debaixo da cama, enrolados em cobertores de papa, a rezar a Santa Bárbara.
Foi tudo isto que eu revivi ao editar este maravilhoso Cancioneiro Transmontano 2005. Foi o facto de saber que não vivi em Portugal os anos suficientes para ter mais recordações de histórias e contos dos avós, e de que a minha mãe hoje com 82 anos é o último elo para tantas dessas histórias e lendas que as tias contavam e cantavam.
Ao sentir que se podem perder esses registos fundamentais duma memória colectiva resolvi meter as mãos à obra e preservar em papel aquilo que tantos idosos nos deram. Sabemos que a língua e cultura dum povo se preservam sobremodo pela tradição oral, limitamo-nos a transcrever o que foi possível ainda recuperar, para que mais tarde, os vindouros saibam que aqui houve gentes que nos falavam de mouras encantadas oitocentos anos depois delas terem deixado de aqui viver.
Lamenta-se que mais recolhas não nos tivessem chegado a tempo de as publicar. Estamos dispostos a guardá-las para uma próxima oportunidade se alguém as fizer chegar até nós. Mas para já deixo-vos cerca de duzentas e cinquenta páginas desta memória transmontana, nas quais mantive os textos, a introdução e o prefácio da primeira edição publicada em 1985.
Para que os nosso filhos se orgulhem das suas raízes e as preservem.
Bragança, ©Abril 2005 J. Chrys Chrystello
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POSTERIORMENTE AO RECEBER O PRÉMIO DA FEIRA DO LIVRO DE BAGANÇA NESSE ANO DE 2005 AQUANDO DO LANÇAMENTO OFICIAL DA OBRA PROFERI AS SEGUINTES PALAVRAS:
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05/06/2005
Os aborígenes australianos sobreviveram aos últimos 60 mil anos sem terem escrita própria, mas a sua cultura foi mantida até aos dias de hoje, pois assentava na transmissão via oral de lendas e tradições. Este é um dos exemplos mais notáveis de propagação das características culturais de um povo que nunca foi nação.
Uma das coisas mais importantes que a Austrália me ensinou foi a tolerância pelas diferenças étnicas e culturais, e o facto de ter aprendido a conviver e a viver com a diferença. Sem aceitarmos estas diferenças jamais poderemos progredir, pois que só da convivência com outras etnias e culturas poderemos aspirar a manter viva a nossa.
Bragança é ainda hoje um distrito possuidor de um enorme acervo de peculiaridades étnicas e culturais, que o seu isolamento permitiu preservar e que derivam da influência de todas as suas colonizações. Esta antiga Cidade de origem neolítica, foi posteriormente um importante centro romano localizado na zona actual da Sé. Às invasões bárbaras sucederam-se as guerras entre mouros e cristãos que tantas tradições orais deixaram como podemos apreciar neste volume, e posteriormente a enorme influência marrana.
Quando aqui cheguei há 3 anos este foi um dos projectos que apresentei por entender que na cultura local, tal como em muitas outras regiões do país, falta o amor próprio e o apreço à herança de cada um. Os movimentos populacionais exógenos e a atracção pelas grandes urbes levam ao menosprezo do que é mais peculiar e mais notório nesta região. Se houvesse uma verdadeira apreciação multicultural, pode ser que as gentes da terra tivessem maior orgulho no que lhes é único.
Constatei com tristeza que das dezenas de cartas enviadas a responsáveis autárquicos pedindo apoio nas recolhas de material para o cancioneiro apenas tivesse recebido apoio do Sr. Presidente da Câmara de Bragança (Eng.º Jorge Nunes), do Sr. Presidente da Junta de Freguesia da Sé (Dr. Paulo Xavier) e do Sr. Provedor da Misericórdia (Dr Eleutério Alves). E foi com eles que parti para esta aventura que era a de compilar registos ainda existentes dos traços culturais autênticos da região.
Creio que a exemplo dos aborígenes australianos esta obra pode vir a perpetuar a cultura transmontana que hoje está em risco de desaparecer na voragem urbana progressista, no desagregamento da família dita tradicional e na importação de modas e hábitos estranhos.
A Bragança de hoje é irmã gémea da outra celta e romana, dela tendo herdado costumes, língua e artesanato, sempre marcados pela sua importância militar e estratégica mas sem jamais perder as suas raízes rurais.
Neste volume pretendemos fazer ouvir a nossa voz, através das memórias do passado para que não desapareçam as lendas e tradições que permitiram a Bragança ser uma terra onde se congregam esforços e iniciativas para manter viva a língua de todos nós, sob o perigo de soçobrarmos e passarmos a ser ainda mais irrelevantes neste curto percurso terreno.
Quando aqui cheguei em 2003, sabia apenas que havia fortes laços de sangue que me prendiam a esta região. Com um avô materno Vimiosense há séculos, uma avó materna e uma mãe alfandeguenses, recordava daqui as férias de infância passadas em terras da vetusta região de Bragança e Miranda. Havia primos e tios avós que contavam histórias de outros tempos, e tinham um falar diferente.
Aprendi a liberdade de passear pelos campos até ao pôr-do-sol, montado numa burra ou num macho, sem peias nem fronteiras, por montes e vales, inspirando este ar puro, experimentando detalhes desconhecidos da natureza que a minha juventude urbana desconhecia. Em casa ainda não havia luz eléctrica que essa só chegaria depois do 25 de Abril, mas os campos já estavam plantados de postes de alta tensão. Das vindimas à apanha da amêndoa muitas foram essas recordações que recuperei.
Lembro-me de ver como no céu havia estrelas em número inaudito, estrelas que jamais se podiam observar nas poluídas abobadas das cidades portuguesas. Lembro-me do cheiro a feno na Eucísia, do chiar dos carros de bois no Azinhoso, dos cortejos pascais engalanados com as colchas penduradas nas pequenas janelas como seteiras abertas em paredes de grossa espessura. Lembro-me dos burricos e dos seus cântaros saltitantes a caminho da fonte, dos jantares à luz da vela e do sempre presente Petromax. As cavilhas na central telefónica do Sendim da Ribeira com doze números de telefones que se ligavam à loja ou venda onde tudo se comprava. E havia ainda as celebradas danças no salão dos bombeiros, e as festas típicas em honra do santo da aldeia, onde aprendi um povo que desconhecia.
Na pequena e ora semi-despovoada aldeia da minha avó materna encontrei os rituais senhoriais da família Gama do engenheiro Camilo Mendonça onde se ia prestar vassalagem quando ali chegávamos para férias, ansiosos de beber a fresca água da Grichinha, fonte milagreira em plena terra das feiticeiras. Revisito a imagem bucólica do Vale da Vilariça antes da barragem, quando da varanda de casa me deleitava com ela enquanto devorava os livros de Jules Verne.
Vi rostos e tradições do tempo dos Cristãos Novos, ainda hoje envergonhados da sua herança marrana. Há cinquenta anos, ainda existia a vergonha de se dizer que se descendia dum abade, cónego ou padre, tão comum a tantas famílias da região, numa mescla de respeito, medo e veneração ao cristianismo que se impusera primeiro aos mouros da rica Alfandagh, para depois ser temporariamente substituído pelos judeus que fizeram desta uma zona bem rica, antes de sofrerem os efeitos da conversão forçada e a clandestinidade, quando não a morte, o exílio ou a Santa Inquisição.
Conheci capelas, vi santos milagreiros em altares cobertos de ouro, andei em procissões e fui a missas onde os importantes da terra tinham as suas cadeiras próprias reservadas em pleno altar. Tomei banho em tanques improvisados e provei frutas desconhecidas. Fiquei sempre com esta recordação destas terras e destas gentes e ela me acompanhou no périplo de mundos e na diáspora que me levou a passar metade da vida no Sudeste Asiático e na Australásia. Essas eram, aliás, as únicas recordações agradáveis que levava do país onde cresci. Eram tão importantes que as utilizei numa entrevista em 1989 para dizer na Austrália como era belo este país de bons vinhos e boas comidas, e paisagens variegadas. Lembrava-me dos fraguedos de Penas Roias (onde fora pela primeira vez em 1962), e da famosa arca do cura dessa aldeia esquecida, onde só regressaria no conforto do alcatrão em 2004.
No Vimioso percorri as ruas onde o meu avô crescera, vi a casa onde a família habitara que permanecia altiva e brasonada. Em Alfândega da Fé revi os jardins e os parques e as memórias dum castelo que a minha mãe sempre referiu nos idos da memória. Recordei as viagens longas e inesquecíveis pelo Douro acima, em comboios que a estupidez do homem mandou retirar dos carris trocando-os por alcatrão.
Recordo com emoção os jantares feitos à lareira, em tachos negros como a noite, e onde os sabores eram bem diferentes. Depois do jantar, sentados no escano, imaginávamos figuras misteriosas que o fogo e as sombras criavam, antes de nos confrontarmos com o medo de regressarmos aos quartos, atravessando enormes salões onde a chama bruxuleante da vela nos desenhava os demónios de que a catequese nos avisara. Mas, mais terríveis ainda eram as trovoadas em plena época das sezões, quando na Quinta da Bendada (hoje em ruínas e não mais pertença da família) nos anichávamos debaixo da cama, enrolados em cobertores de papa, a rezar a Santa Bárbara.
Foi tudo isto que eu revivi ao editar este maravilhoso Cancioneiro Transmontano 2005. Foi o facto de saber que não vivi em Portugal os anos suficientes para ter mais recordações de histórias e contos dos avós, e de que a minha mãe hoje com 82 anos é o último elo para tantas dessas histórias e lendas que as tias contavam e cantavam.
Ao sentir que se podem perder esses registos fundamentais duma memória colectiva resolvi meter as mãos à obra e preservar em papel aquilo que tantos idosos nos deram. Sabemos que a língua e cultura dum povo se preservam sobremodo pela tradição oral, limitamo-nos a transcrever o que foi possível ainda recuperar, para que mais tarde, os vindouros saibam que aqui houve gentes que nos falavam de mouras encantadas oitocentos anos depois delas terem deixado de aqui viver.
Lamenta-se que mais recolhas não nos tivessem chegado a tempo de as publicar. Estamos dispostos a guardá-las para uma próxima oportunidade se alguém as fizer chegar até nós. Mas para já deixo-vos cerca de duzentas e cinquenta páginas desta memória transmontana.
Devo concluir agradecendo ao Dr. Eleutério Alves, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Bragança, por ter tido a visão e a confiança para me deixar elaborar este Cancioneiro. É igualmente devido o nosso reconhecimento ao Dr. Eduardo Alves da SCMB, e a Sandra Rocha, (Estagiária do 5º ano Trabalho Social da UTAD – Pólo Miranda do Douro) o nosso muito apreço pelas recolhas efectuadas dentre os utentes da Santa Casa, bem como ao Professor Luís Canotilho que nos ilustrou o livro e a Helena Canotilho que disponibilizou imagens relevantes como as da capa. Seria injusto não mencionar a m/ mulher Helena Chrystello que abdicou de horas importantes para fazer a revisão de toda a obra e que não parava de descobrir pequenos nadas que nos haviam escapado a todos. Embora o seu nome não apareça nesta obra foi também graças ao seu apoio que perseverei em compilar este volume.
Espero que todos tenham tanto prazer em lê-lo como eu tive a transformá-lo naquilo que aqui têm, e que possa servir para passar de geração em geração com a satisfação de todos os que podem dizer, comigo, TENHO ORGULHO DE SER TRANSMONTANO.
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BOA LEITURA PARA ESTE FIM DE SEMANA
O LIVRO ESTÁ DISPONÍVEL APENAS ATRAVÉS DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE BRAGANÇA.
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