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LíNGUAS, IDENTIDADE E COLONIALISMO
01-05-2007


Os diálogos que se seguem sobre as línguas, identidade e colonialismo circularam no grupo Timor Crocodilo Voador http://groups.yahoo.com/group/timorcrocodilovoador/

Vários correspondentes comentam a opinião do timorense, José e Pereira, sobre o tema línguas, em especial a língua tétum e a Identidade em Timor Leste.

De "José Pereira" lelobere4@gmail.com
25 abril 2007
Um bom dia a todos, Caros amigos, se existisse neste mundo um Tribunal Penal para as línguas, teríamos que levar as línguas como o Inglês, o Espanhol, o Português e o Francês a este Tribunal para serem julgados pelos crimes que cometeram pelo extermínio das outras línguas e dialectos de outros povos e nações.

O colonialismo não só tem a ver com o domínio político, militar e económico, mas também com o domínio cultural. A cultura é uma das forças da resistência utilizada pelos povos colonizados para resistirem contra a ocupação, por isso, para facilitar e manter a colonização, os colonizadores procuraram destruir as culturas destes povos, umas das quais foram as línguas. Uma das maneiras mais eficaz para destruir é a imposição da língua do colonizador.

*"A colonização foi também uma das maiores causas de extinção de idiomas; é o caso por exemplo da dominação belga no Congo quando **foi imposto o francês como língua oficial, em **detrimento das mais de 200 línguas e dialetos locais." (Correio Braziliense. Morte Linguística Anunciada. Coisas da Vida. pg. 3. 03.07.01)*
* *

A extinção de muitas línguas e dialectos de outros povos e nações foi a culpa da colonização europeia. Os colonizadores europeus invadiram os territórios destes povos e impuseram os seus domínios políticos, militares,económicos e culturais. O pior foi o extermínio não só as culturas, mas também os próprios povos que habitavam nestes territórios, caçando e matando como animais, como aconteceu na América com as tribos Índias, na Africa com algumas tribos africanas e na Ásia com as tribos aborígenes na Austrália,etc. (o acto de Genocídio). Quando estas tribos foram exterminadas,desapareceram também as suas culturas e línguas.

*"Quando os europeus chegaram à América, no século XV, havia entre 600 e 800 línguas apenas na América do Sul, e, com o processo colonizador, "a imensa maioria desapareceu e neste mesmo momento há línguas em processo de extinção devido ao contacto desigual entre a sociedade ocidental e algumas sociedades indígenas", afirmou." (O autor é correspondente da IPS. Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde. **(FIN/2006)
http://www.mwglobal.org/ipsbrasil.net/nota.php?idnews=1659 ).*

*"**In Australia,** **as Kate Pearcy reports, it's estimated that more than 100 Aboriginal languages have become **extinct** since the arrival of the ** colonisers** in 1788**.*
*http://www.abc.net.au/pm/stories/s316108.htm "*

* *
*"Clearly Europe as the lowest level of language diversity in world terms, and the **colonial spread of European languages** has been one of the **major causes** of **indigenous language loss elsewhere**. *

*http://www.languageinindia.com/dec2004/endangered1.html *

* *
*"Outright genocide is one cause of language extinction.** For example, when European invaders** exterminated **the **Tasmanians** in the early 19th century, an **unknown number of languages died as well**
http://lsadc.org/info/ling-faqs-endanger.cfm"*

* *
*"A América e a Austrália estão na pior situação. Na Austrália, nos últimos 100 anos, foram extintas centenas de línguas aborígenes e outras tantas estão em processo de desaparecimento em decorrência das políticas de assimilação cultural em voga até a década de 70. O país prezava o idioma inglês como língua oficial em detrimento das línguas minoritárias.*

*Nos Estados Unidos, pelo menos 150 línguas indígenas, que conseguiram
sobreviver à chegada dos europeus no continente alguns séculos atrás, estão agora ameaçadas de extinção. O mesmo acontece com muitas línguas ainda faladas pelos índios brasileiros.*

*http://www.dw-world.de/dw/article/0,1564,643024,00.html"*

No seguinte veremos o impacto da colonização portuguesa e a imposição da língua no Brasil.

*"No Brasil, mais de 99 por cento da população brasileira tem como língua materna o português. Os outros, isto é, menos de um por cento da população, utilizam cerca de 180 línguas indígenas, das quais 140 estão ameaçadas de extinção*

*A extinção de línguas começou desde que os europeus conquistaram a América e se expandiram para o Pacifico, África e Austrália."*

*http://dgz.org.br/ago01/Ind_rec.htm *

*"Hoje, os povos indígenas no Brasil falam mais de 170 línguas e dialetos diferentes. Acredita-se que quando os portugueses chegaram aqui, este número girasse em torno de mais de mil idiomas, segundo o Instituto Sócio Ambiental. Hoje se conhece a existência de dois grandes troncos lingüísticos, o Tupi e o Macro-Jê, e 36 famílias lingüísticas. Apenas nove línguas indígenas têm acima de 5 mil falantes: Guajajara, Sateré-Mawé, Xavante, Yanomami, Terena, Makuxi, Kaingang, Ticuna e Guarani, estes últimos com 30 mil indivíduos. Cerca de 110 línguas contam com menos de 400 falantes. (http://educaterra.terra.com.br/almanaque/miscelanea/idiomas.htm)"
*

* *

*"**Segundo um estudo das Nações Unidas, mais da metade dos idiomas do mundo estão condenados à extinção.*

*Isso ocorre, fato ao povo que domina o idioma original, acaba por não
repassá-lo a seu filhos e este termina no esquecimento total.*

*Isso também ocorre no Brasil. Por exemplo, a língua 'arikapu' hoje é
faladapor apenas seis índios. Índio da tribo Pitaguarí (CE), povo que hoje só fala o português.*

*Quando **os portugueses chegaram ao País, **povos indígenas falavam **mais de mil idiomas.***

*Hoje não passam de duzentas, os povos indígenas no Brasil falam mais de 170 línguas e dialetos diferentes. Acredita-se que quando os portugueses chegaram aqui, este número girasse em torno de mais de mil idiomas, segundo o Instituto Sócio Ambiental. http://pt.wikipedia.org/wiki/Estudo_de_idiomas"
*

* *
Estes são alguns dos factos que nos revelam sobre os horríveis impactos negativos causados pelo domínio cultural colonial europeu relevante às culturas indígenas dos povos colonizados.

Estes povos colonizados até hoje ainda sofrem actos injustos
praticados pelos povos restos colonizadores. Os povos americanos indígenas vivem-se marginalizados nas suas próprias terras como acontece nos EUA, no Brasil, no Canada, etc. Os australianos indígenas também vivem-se muito mal e marginalizados na Austrália. Estas terras são muito ricas, mas os donos delas não tiram nada nenhum aproveitamento, só os povos forasteiros que as aproveitam. Por isso, nós os timorenses, temos que ter cuidado com a política do "neocolonialismo". Se não um dia seremos minorias e marginalizados e vivemos na miséria como os aborígenes na Austrália e os
Índios na América. Seremos estrangeiros na nossa própria terra e os outros povos forasteiros serão os donos da nossa terra quando não conseguirmos adaptar com as suas culturas que nos impõem e se conseguirmos adaptar também, as nossas culturas seriam vitimas e extintas, perdendo a nossa identidade como um povo e uma nação.

Uma coisa muita engraçada e não tem nada lógica, é que alguns dos povos colonizados consideram colonialistas os seus colonizadores, mas as culturas coloniais destes colonizadores eles consideram como as suas identidades.
Como é que possível a cultura de um outro povo e pior ainda de um
colonialista é adoptada pelo povo colonizado como a sua identidade? Não sei se talvez fosse uma ignorância ou uma estupidez que resultou este acto engraçado? Ou talvez antes este povo só vivia na selva, não tendo nada a sua própria cultura e foi o seu colonizador que o domesticava e tornava-lhe como ser humano, por isso deu-lhe uma cultura que era do seu dono colonizador para que pudesse ser utilizada como a sua identidade?

Nós os timorense temos que acabar que com este acto vergonhoso e indigno.Como antes éramos um povo e uma nação e já tínhamos as nossas próprias culturas, agora já somos um país livre e independente, temos que ter orgulho das nossas próprias culturas. Temos um dever moral para as defender, preservar e promover. Não podemos deixar nunca as culturas forasteiras vêm destrui-las. Aprendemos as culturas de os outros povos e de as outras nações para enriquecer as nossas, não para as substituir ou destruir.

Como antigamente os colonizadores utilizavam a política de dividir e reinar e a politica de extermínio para estabelecer os seus domínios sobre os territórios e os povos dominados, hoje em dia, os neo-colonizadores ainda continuam a utilizar estas políticas mas de uma forma muito mais sofisticada. Antigamente, eles dividiam as tribos ou os pequenos reis para enfraquecer a resistência contra os seus domínios, hoje em dia eles dividem os políticos para impõem os seus interesses. Eles utilizam os políticos que colaboram com eles para realizar os seus domínios políticos, culturais, etc.
Por isso, eles procuram sempre apoiar os políticos e regimes que promovem e defendem os seus interesses. Antigamente eles exterminavam os habitantes das terras conquistadas e depois levavam as pessoas das suas terras para habitarem nestas terras como nos EUA, no Canada, no Brasil, na Austrália, etc. Hoje em dia, eles aniquilam a nossa economia pela criação de instabilidade politica interna para que o nosso país possa ficar dependente neles, depois vêm como os anjos para ajudar, criar negócios, comprar terras, construir casas e depois ficam para sempre até dominam todo o que está na nossa terra, logo serão donos da nossa terra e seremos nós os forasteiros e marginais.

Por isso, para que a historia dos índios e dos aborígenes não aconteça na nossa terra, na terra do Povo Maubere, temos que defender, preservar e promover as nossas próprias culturas que se servem como umas das nossas armas contra a invasão moderna de outros povos e de outras nações. Já aprendemos com a história do colonialismo, por isso, não deixamo-lo repetir outra vez na nossa história. Mas isso não quer dizer que temos que isolar-nos a nós próprios, mas sim, em termos das nossas relações com outros povos temos que promover os nossos interesses nacionais, não os interesses de outros povos como por exemplo a promoção da língua portuguesa.

A língua portuguesa não é a nossa língua, é uma língua estrangeira, de um outro povo que antes era o nosso colonizador, é uma língua colonial. Por isso, não tem nada razão e lógica para adaptar esta língua colonial como a nossa identidade e língua oficial. Ele é a identidade colonial e o símbolo da colonização, quando mantemo-la é a mesma coisa que mantemos a colonização. Temos a nossa língua própria que podemos desenvolver e utiliza-la como a nossa identidade nacional e a nossa língua oficial só. O Tétum só precisa de desenvolver mais, já poderia estar pronto para ser utilizado oficialmente. Para desenvolver melhor o Tétum é preciso dos próprios linguistas timorenses que sabem muito bem a sua língua e cultura
como por exemplo o Sr. Luís Costa e os outros que possam desenvolver um bom Tétum não como o Tétum crioulo como os linguistas estrangeiros o fizeram. O Tétum não é um crioulo, ele já existia antes da chegada do colonizador português.

O Povo Maubere como antes já era um povo e uma nação, agora ainda é e será para sempre como um povo e uma nação que tem as suas culturas próprias que já não é preciso de emprestar a cultura dos outros povos para servirem como a sua identidade e a sua língua oficial.

Viva Povo Maubere

Viva a Terra Sagrada do Sol Nascente

Viva a Terra Crocodilo, Timor Lorosae

Um grande abraço

Lelobere

 

&&&
Victor Tavares <victortavares2@ yahoo.com. br> escreveu
26 abril 2007
E o bahasa indonésio ????

Não faz qualquer sentido existir tribunal para julgar coisas
invisíveis neste mundo. Nem a cultura com sendo um objecto vivo e julgá-la
pela existência desta. Se existiu um prejuízo ou "danos" morais ou culturais
das populações indígenas de algum país, isso tem haver com os actos do homem
como factor causador e como sujeito de prejuizos dos objectos físicos e não
físicos. A língua é apenas um meio de comunicação entre a humanidade e a
cultura é certamente também o meio da interacção social entre os indivíduos
numa sociedade. Por isso, não tem qualquer mal se houvesse muitas culturas,
muitas línguas e muitas tradições na sociedade timorense. Quanto mais o povo
conhece as línguas estrageiras melhor, porque num mundo globalizado as
línguas são as janelas para olhar o mundo.
Victor
==
"José Pereira" <lelobere4@gmail.com>
28 abril 2007
Um bom dia a todos,
Caro amigo Victor, em primeiro lugar gostaria de lhe agradecer pela sua
participação neste debate relativamente às línguas coloniais e os danos
causados por elas.
Bom, quanto à língua colonial Indonésia, até agora no meu conhecimento
pessoal nunca encontrei e ainda não encontro neste momento algumas provas
concretas pelo estudo científico e formal que revelam que esta língua já
exterminou algumas línguas e alguns dialectos de outros povos e de outras
nações como tinham feito as línguas coloniais europeias. Por isso, fico com
muito grato, se você tiver algumas provas destas, podendo partilhar connosco
nestes fóruns para que se for possível possamos também ajudar a salvar
algumas outras línguas e dialectos que agora estão em perigo de extinção
pela ameaça desta língua.

Também acho que não tem nada sentido e nem lógica para levar e julgar as
coisas no Tribunal, não só aquelas que são invisíveis mas também aquelas que
são visíveis, e não só as coisas mas também os animais, nem e nunca se pode
julgar no Tribunal, só podemos julgar sim pelo nosso pensamento que depois
produzimos via os nossos comportamentos ou actos quando tomamos decisões.
Esta frase sobre levar e julgar as línguas coloniais no Tribunal pelos
crimes causados só tem sentido quando se serve como uma expressão metafórica
que assemelha essas línguas como os seres humanos por enormes danos causados
por elas relativamente às outras línguas e dialectos de outros povos e de
outras nações no mundo. Por isso, esta frase é só uma simples expressão
metafórica, não é nada mais do que isso.

O homem não só o único causador, mas poderia provavelmente como o primeiro
causador. Como por exemplo, o homem atira o fogo à casa (1º causador) e
depois o fogo queima a casa (2º causador). A casa é queimada por causa do
fogo e o fogo destruiu a casa por causa do homem. É mesma coisa com a
língua. Um povo decide utilizar a língua de outro povo ou obriga os outros
povos a utilizarem a sua língua (1º causador) e depois esta língua extermina
as outras línguas existentes (2º causador). Na conclusão podemos
simplesmente dizer as outras línguas foram exterminadas por causa desta
língua e que esta língua causa a extinção das outras línguas por causa da
atitude ou do comportamento do homem.

A língua não só meramente serve ou funciona como o instrumento de
comunicação entre os seres humanos, ela também ainda desempenha mais funções
além desta função básica e clássica. A língua funciona também como o
instrumento de dominação ou colonização, o instrumento político, o
instrumento de discriminação e da divisão de classes sociais, etc. Os
colonizadores nos tempos coloniais clássicos utilizavam as suas línguas para
estabelecer os seus domínios sobre os outros povos colonizados. Quanto mais
povos colonizados falassem as suas línguas teriam mais possibilidades e
facilidades de estabelecer e preservar os seus domínios sobre estes povos.
Até eles utilizavam algumas pessoas dos povos colonizados que souberem as
suas línguas para fortalecer e expandir os seus domínios. Porque existiam
pessoas dos povos colonizados que colaboraram com os colonizadores para
defender e expandir os domínios coloniais. Hoje em dia também ainda existem
pessoas que defendem os valores coloniais do que os seus próprios valores.

Na era moderna ou seja na era da globalização, a língua obtém um peso
político muito grande. Um país que a sua língua é muito mais falada no
mundo, a sua influência e peso político, económico e cultural na cena
internacional aumenta mais, e então automaticamente obtém mais poder
relevante aos outros. Por isso, os nossos antigos colonizadores agora
começam a competir em estabelecer este novo domínio que podemos denominar o
"neocolonialismo" ou "colonialismo contemporâneo" . Como antigamente eles
competiam pelos domínios territoriais físicos a procura da riqueza e da
habitação nestes territórios, agora eles competem pelo domínio dos
territórios não físicos como o domínio político, económico e cultural que é
também antigamente já implantavam nos seus antigos territórios coloniais que
agora só é preciso de defender, reviver e expandir mais para outros povos e
nações. Como antigamente eles utilizavam os chefes da tribo ou os pequenos
reis para ajudar a defender e estabelecer os seus domínios, hoje em dia, os
políticos e governantes são os alvos perfeitos para esta táctica. Na
verdade, posso dizer que eles são muito mais espertos que nós. Sabem muito
bem as nossas fraquezas e aproveitam-lhas muito bem para servir os seus
interesses.

As principais fraquezas nossas são os nossos pensamentos e sentimentos de
que os nossos valores culturais são inferiores e de que os valores culturais
dos colonialistas são superiores e melhores. Sentimos mais orgulho com as
culturas dos outros do que as nossas próprias culturas. Por isso, damos tudo
para defender as culturas coloniais e dizemos mal, e até destruir as nossas
próprias culturas pela imposição das outras culturas forasteiras. Seria
muito bom quando aprendemos as culturas de os outros povos para conhecermos
mais coisas benéficas para as nossas próprias culturas e o nosso país. Mas
não podemos nunca adoptar e considerar a cultura de outro povo como a nossa
cultura própria e a nossa identidade. Este é um acto vergonhoso, porque;

1. roubamos a cultura e a identidade de um outro povo e de uma outra
nação.
2. isto mostra que desvalorizamos a nossa própria cultura e
valorizamos mais a cultura de outro povo.
3. isto é um sinal da nossa inferioridade perante os outros povos como
um povo e uma nação.
4. facilitamos a expansão do domínio cultural de outros povos e
nações.
5. mostramos a nossa dependência civilizacional e cultural

Aqui não defendo uma cultura pura e perfeita, mas sim uma cultura própria.
Podemos tirar alguns valores das outras culturas para o aperfeiçoamento das
nossas. Podemos tirar algumas palavras portuguesas para completar as
palavras que ainda faltam nossa língua. Essas palavras, podemos dizer que
são palavras Tétum de origem portuguesa. Como também temos alguns timorenses
de origem portuguesa ou descendentes portugueses. Isto nada é problema,
porque não faz nada mal. Não podemos tirar todo que é dos outros a dizer que
é a nossa cultura e a nossa identidade, temos que defender e promover.

É melhor adoptar, defender e promover os valores próprios da nossa nação
mesmo que seja de uma só zona ou aldeia que pertence ao nosso território
nacional, ao nosso povo, à nossa nação do que tiramos todo aquilo que de um
outro povo longínquo que é muito diferente em termos territoriais,
culturais, raças, etc. Somos um povo e uma nação, por isso um valor cultural
que pertence a um é pertence a todos nós, rejeitando só que vem de fora para
ameaçar e destruir o que é nosso.

Quanto à língua é como o instrumento de discriminação e de divisão das
classes sociais, acho que não preciso de explicar mais, podemos ver isto na
nossa realidade social. Um exemplo real é como o que está a acontecer em
Timor Leste. Os timorenses que não sabem o Português são discriminados em
termos de acessão ao mercado de trabalho. Existem classes elites na
sociedade também tem a ver como o domínio da língua. Quem domina o Tétum, o
Português, o Inglês, etc. é considerado fazer parte da classe elite na
sociedade. Por isso, a língua, principalmente aquela tem um nível de
influência e consideração alta pela sociedade nacional e internacional obtém
muitas diversas funções, além da sua função clássica de como instrumento de
comunicação.
Um grande abraço Lelobere

&&&

"APMachado" <apalhinhamachado@sapo.pt>
25 abril 2007
Com tantas línguas e dialectos será que se entendem (ou entendiam) todos?
Foram também os pérfidos europeus que instigaram os timorenses uns contra os outros?
Ou isso não é outra coisa senão o reavivar do "ambiente idílico" anterior à colonização?
Como é que os timorenses pensam construir um Estado se não se entendem entre eles e sem uma língua veícular comum?
Pessoas bem intencionadas, como o Autor do texto que estou a comentar, não têm consciência do mal que semeiam. Mas alguém terá de lhes dizer isto mesmo.
Tó M

&&&

"Henrique Correia" <saieong@oniduo.pt>
26 abril 2007
Desde que o Homem começou a falar que todos os dias nascem e morrem línguas.
As línguas celtas da 1ª geração perderam-se para sempre e delas nada sabemos. Não foram vítimas de nenhum "colonialismo" .

Uma das línguas mais importantes na História da humanidade, o Latim, está extinta há muito tempo. Também ela não foi vítima de qualquer "colonialismo" .

O Português que chegou ao Brasil em 1500 era muito diferente do actual, sendo semelhante ao que se fala ainda hoje na Galiza. Só para exemplificar, passo a citar um excerto da "Carta a El-Rei D. Manuel", de Pêro Vaz de Caminha:

"[...] E os vazios com a bariga E estamego era da sua propia cor E a tymtura era asy vermelha que a agoa lha nom comya nem desfazia / ante quando saya da agoa era mais vermelho. / sayo huum homem do esquife de bertolameu dijz. E andaua antr eles sem eles emtenderem nada neele quant a pera lhe fazerem mal. Se nom quanto lhe dauam cabaaços d agoa."

Conclui-se que se outras línguas mudaram ou se extinguiram por causa do Português, também este mudou e muito, por influência de outras línguas. A evolução linguística é um processo dinâmico.

"Jacaré", "catapora", "pipoca", "mirim", "abacaxi", são alguns exemplos de palavras do Tupi-Guarani que correm mundo - porventura em Orkuts e outros que tais - graças à língua portuguesa, que as perfilhou e lhes dá uma projecção a nível mundial como elas nunca sonharam. O mesmo se pode dizer relativamente ao Quimbundo, como provam palavras como "moringue/moringa" , "dendê/dendem" , "senzala/sanzala" , "caxumba", "quitanda", etc.

O Português assimilou do Japonês "banzé", "quimono", "biombo", "catana", etc. Reciprocamente, "botan", "pan", "sarada", "panderó", "koppu", etc., passaram do Português para o Japonês.

No Português contemporâneo existem vocábulos de muitas outras proveniências, como Índia, Sri Lanka, Inglaterra, França, Malásia, China, etc, etc.

Não obstante, essas influências não resultaram de nenhuma colonização desses países sobre Portugal.

Este fenómeno de interpenetraçã o das línguas reflecte idêntico processo civilizacional e antropológico: a maior parte dessas novas palavras enferma conceitos que até então não existiam nas línguas - e consequentemente civilizações - adoptantes.

Exemplo disso são palavras como "camisa", "igreja", "garfo", "roda", "martelo", "janela", "mesa". Antes do contacto com portugueses, esses conceitos não existiam na Insulíndia, África subsaariana ou aquilo que designamos hoje por Brasil. Por outras palavras, os portugueses levaram para lá a roda, não só o seu nome.

De igual modo, a essa mistura linguística corresponde normalmente uma miscigenação étnico-racial. A população brasileira é mestiça, tendo muito sangue negro e índio.

O mesmo se passa com frutas e legumes que foram intercambiados entre os vários continentes. No Brasil, a cana veio da Madeira e a palmeira e o cafeeiro/cafezeiro de África. Em Timor, a mandioca veio de África e o milho, a batata e a goiaba vieram do Brasil. Para além da batata e do milho, já citados, a Europa também recebeu o tomate da América. Os portugueses puseram a Europa a beber chá, etc., etc.

Portanto, reduzir a evolução linguística mundial a um "taka-taka" das línguas colonialistas sobre as pobres línguas colonizadas parece-me uma visão muito simplista de algo que nunca estará suficientemente estudado. O perigo da generalização, como já dizia o meu amigo Nuno, consiste em simplificar as coisas ao ponto de servirem qualquer falácia.
Henrique

&&&

"Ken Westmoreland" <ken_westmoreland@hotmail.com>
25 abril 2007
Sim, sem dúvida, a destruição de qualquer língua e cultura indígena é
vergonhosa, mas a ideia de pureza é absurda e artificial. Não é
nenhuma surpresa que o Adolf Hitler promoveu o uso de
palavras 'puras' alemãos como 'fernsprache' em vez de 'telefon'.
Não são os estrangeiros que promovem um tétum crioulo, mas sim os timorenses
mesmos, como podem ver nos artigos de Suara Timor Lorosae.

Uma lição de história:
Nos anos 1950, houve um jovem estudante cambojano, cujo o nome foi
Saloth Sar. Morou na França muito tempo, falou um bom francês, e liu
muita literatura francesa. Mas tive a ilusão de uma Camboja que foi
pura linguísticamente e racialmente, sem qualquer influência
estrangeira. O Saloth Sar foi melhor conhecido como Pol Pot, milhares
de cambojanos morreram por causa do seu sonho louco.
Ken

&&&

gildeneide_freire
25 abril 2007
A potência da língua e do país

Vamos deixar uma coisa bem clara: o objetivo de quem se sente ameaçado é
atacar. A ameaça é verdadeira porque o Brasil apesar de todos os problemas que
tem é uma potência em quase todas as áreas. Tem problemas como quaisquer outros
países do mundo. Daqui a umas dezenas de anos estará sustentando quase metade do
mundo em suas várias dimensões e daí isso incomoda muito. A língua portuguesa
será respeitada, quer queiram quer não. Aqueles países que tiveram a sorte de
ter o português como língua oficial lucrarão, por extensão e reflexo com tudo.
Entendem o que digo?
A pergunta: será que o problema do Timor não é apenas um "pontinho"
de algumas agências globalizadas para atingir um alvo maior?
Gildeneide

&&&

"Henrique Correia" <saieong@oniduo.pt>
26 abril 2007

Paulino e Gildeneide acertaram na mosca. Essa é uma guerra de bastidores já
muito antiga, relacionada com hegemonias. Como sabem, não somos só nós, os
lusófonos, as vítimas dessas macrocefalias internacionais.
Infelizmente, Timor-Leste acaba por sofrer esses efeitos por tabela, apesar de
ser apenas "um pontinho". É muito injusto. E a ideia que nos querem vender é
pura chantagem: se mudarem UMA das vossas línguas oficiais, nenhum mal vos
acontecerá. Portanto, se Timor aderisse ao Inglês acabavam os "artigos" na
imprensa e assim já poderia curtir tranquilamente o seu subdesenvolvimento...
A culpa dos problemas de Timor - e do mundo - não é desta ou daquela língua. O
mundo está cheio de países miseráveis que não falam Português. Querem mais
exemplos? O desgraçado e francófono Haiti. Myanmar, Bangladesh e Palestina, os
três colonizados por ingleses, sendo que este último nem sequer tem direito a
ser um Estado independente. Caso semelhante é o do castelhanófono Saara
Ocidental, cuja triste história é incrivelmente semelhante à de Timor.
As línguas não têm nada que ver com isto. São apenas veículos - de sabedoria e
cultura ou de escárnio e maldizer.

Henrique
&&&
E para finalizar e acrescentar ao debatido nos diálogos anteriores passo uma opinião publicada no artigo “LÍNGUAS MINORITÁRIAS E MEMÓRIA” de Jean Baptiste Nardi para refletirmos sobre o papel das línguas na construção das identidades:
A relação da memória com as línguas minoritárias, que sejam de migrantes ou regionais, é um complexo processo de conservação e/ou restabelecimento da cultura dos povos que a falam. Manter essas culturas ainda é considerado como uma manifestação do folclore, com a noção de "atraso" que esta palavra carregue geralmente em si. Tentar conservar a língua aparece como uma luta sem esperança, diante da evolução atual do mundo que tende para a universalidade, o pensamento único. Ao mesmo tempo, tentar desenvolver sua prática é uma forma do grupo conquistar seu espaço na sociedade, uma forma de construir a memória do futuro. Raros são os países compostos de apenas um elemento étnico e não há crescimento sem intercâmbio e reconhecimento da alteridade: a pluricultura é um enriquecimento. Mas esse reconhecimento cultural passa pela organização da língua – e em conseqüência da memória -, quer a nível da estrutura lingüística, quer à nível das instituições. Nenhuma cultura regional ou migrante se manterá sem que sua língua seja ensinada; fazemos nossa a frase de Joseph Vendryes: “É na escola que a luta se prepara; mas é no comércio da vida que a vitória se ganha” (VENDRYES, 1968: 309).
Fonte: VENDRYES, Joseph. (1968). Le langage. Introduction linguistique à l’histoire. Paris, Albin Michel.
www.apreis.org/docs/bresil/Lang.minor.mem_jbnardi_vp.pdf


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O grupo gestor deste FORUM de DEBATES se denomina INSTITUTO DE CULTURA LUSOFONA ANTONIO BORGES SAMPAIO - ICLAS/ELOS, uma iniciativa de UBERABA-MG, cidade do cerrado brasileiro.

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