Iclas - Instituto de Culturas Lusófonas
Antonio Borges Sampaio


01-07-2004

Curso de Tupi Antigo 2ª aula Prof Joubert Di Mauro


32º Curso de Tupi Antigo

1º de Março de 2004

Fonte: www.painet.com.br/joubert
joubert.leblon.net (sem www)
www.tupi.info
www.tupy.net

Olá meus caríssimos novos alunos do 32º Curso de Tupi Antigo, segue abaixo
a segunda aula..

Sessão 1

O ALFABETO

Uma das maiores dificuldades quando a gente inicia o estudo do tupi é a grafia das palavras, cada autor escreve como está acostumado a escrever no alfabeto da sua língua e adota uma série de sinais gráficos para interpretar os sons que não percebe bem.

O y, principalmente, tem um som típico. Para pronunciá-lo corretamente é preciso colocar os lábios na posição de i e a língua na posição de u, que é o inverso do som do u francês, embora muitos digam que parece o u francês.

Se depois do y vier uma vogal, como em yara, a impressão que se tem ao ouvir o som é de y(g)ara, parece um g. Para este som de y já se viu tudo que é grafia possível: u, com trema, y com circunflexo, i com circunflexo,etc. O Padre Anchieta grafava y(g). Nós vamos procurar ficar fora destas dificuldades e adotar o alfabeto português com algumas pequenas alterações.

1. O som do (R) é sempre leve, brando, mesmo no início de palavras. Nunca tem o som forte que usamos em rato. Rana, Rura, se falará sempre com o som de Paris, arame, etc...

2. O som do (S) é meio chiado, não tão sibilado e nunca terá o som de z, mesmo que fique entre duas vogais. No caso, como em português e para facilitar a nossa pronúncia, coloca-se dois ss, como em essá = olho, mas poderia ser esá e o som seria o mesmo. Encontra-se eçá em muitos autores.

3. O u depois do q, como em palavras que soam Que e Qui, é líquido, não aparece, portanto, vamos substituí-lo pelo k que é o som exato. Ke e Ki.
Itaqui será itaki e em vez de Quera, escreveremos Kera=dormir. (Pitúna oKéri = A noite  adormecida)

4. O d inicial nunca é puro, é um d nasal, isto é, nd e mesmo no meio da palavra o som é nasal. O b tem sempre o som nasal, próximo a mb,principalmente no meio das palavras. As consoantes são bastantes dúbias e confusas, principalmente o P, o B e o M. Exemplos: Burity, Murity, Maranã, Paranã, Biri, Piri, são palavras que comumente se confundem. E o c, às vezes, se muda para p, como em Ibiracuéra para Ibirapuéra.

5. Ao contrário das consoantes, as vogais tupis são riquíssimas: a,e,i,o,u,y , vogais orais e outras tantas nasais, com til, além dos sons diferentes que representam quando devidamente acentuadas: â, á, ê, é, ^i,
í, ô, ó, ú.

6. Não existem no tupi os sons de F,J, L, V e Z, nem é compatível com a língua os grupos bla, bra, pla, pra, cla, tra, gra e outros, isto é, grupos com duas consoantes juntas. Por influência do português algumas daquelas letras entraram na grafia tupi, e assim, as palavras escritas hoje com J, que se pronúncia como dj deveriam ser com i, As poucas que têm L tinham r
brando.

Sessão 2
FUNDAMENTOS

A) A maioria das palavras tupis é constituídas por raízes com uma ou duas sílabas que já definem praticamente de que assunto se trata. Por exemplo: CAA é mato, planta, SOO é animal, bicho, aliás no mundo inteiro e em qualquer língua, qualquer jardim zoológico também é Zoo, ou Soo, tanto faz, dependendo da pronúncia mais ou menos branda. Y é sempre água, ou um
líquido qualquer, A é cabeça, coisa arredondada, e também, semente, raiz.
Tais monossílabos se perdem no passado da humanidade e não se sabe deles, a
origem. Outras raízes importantes são:

Sy mãe
Tuba(ruba) pai, tronco
Aba pessoa, homem, índio
Yby a terra, o chão
Oca a casa, o abrigo
An sombra, vulto, fantasma
Uã o talo, a haste
Itá a pedra, objeto duro, metal
Ara dia, luz, tempo, clima, hora, nascer.

Como se pode observar são substantivos simples e com eles são compostas uma infinidade de vocábulos. É muito importante saber estas pequeninas palavras porque elas nos permitem identificar de imediato o assunto sobre o qual se está falando.

B) A infinidade de nomes tupis que a gente encontra na geografia brasileira, nas denominações dos animais, das plantas, etc., são quase sempre descrições perfeitas e rigorosas das coisas a que se referem e envolvem uma explicação inteira. Cada palavra é uma verdadeira frase, o que
aliás é um dos grandes prazeres do estudo da língua. Decifrar o significado das palavras, recorrendo inclusive a uma visita ao local. Exemplo bom é:
Paranapiacaba = parana-epiaca-caba , mar-ver-lugar onde. Lugar de onde se vê o mar. Quem conhece diz que a descrição é perfeita.

C) As regras para você construir uma palavra ou uma frase são bem claras e definidas, e o conhecimento destas regras é importante para compreender a língua. É preciso também observar e considerar com muito cuidado o fato de que o tempo muitas vezes altera profundamente as raízes e os elementos essenciais das palavras, tornando difícil sua tradução.
Exemplos conhecidos são Butantan e Botucatu, que na verdade seriam Yby-tãtã, terra-dura, firme e Ybytu-catu, vento-bom.

Algumas regras para composição de palavras:

1. Na reunião de duas palavras a regra geral pode ser observada nos
exemplos abaixo:

itá+piranga itapiranga pedra vermelha (aqui ficou igual)
ybaca+oby ybacoby céu azul (aqui caiu a última vogal)
ybaca+piranga ybapiranga céu vermelho (aqui caiu a última sílaba)


2. Na reunião de dois substantivos o possuidor vem primeiro e o possuído
depois, sem ajuda de preposição:

Tupãoca ou Tupanaroca Casa de Deus
Jaguaressá olho de onça, isto é, jaguara=onça e essá=ôlho
Abapy pé de homem, isto é, aba=homem, índio, pessoa e py=pé


3. Na reunião de um substantivo e um adjetivo:

guirá+tinga pássaro branco (como em português)
pirá+juba peixe amarelo"

D) A língua tupi é aglutinante e não flexiona em gênero e número. Não há artigo definido nem indefinido. Para se distinguir sexos utiliza-se as palavras macho=mena e fêmea=cunhã. Para o plural usa-se os sufixos etá e tyba (muitos) e (grande quantidade). Os pronomes pessoais e que servem de possessivos também, são:

Xe eu, meu e minha
nde tu, teu, tuas e teus
i ele, dele, deles e delas
oré nós, nosso, nossa, nossos e nossas
pe Vós e vosso
i Eles e deles

ATENÇÃO:

- sobre os pronomes e os prefixos verbais relativos a estes pronomes falaremos com mais detalhes na próxima aula, pois são importantíssimos na língua.

Sessão 3

VOCABULÁRIO

agradável, bom, bem catu
amigo aê
amor, afeição moraussuba
bom ,para comer, maduro aujé
bom ,tempo aracatu
bom! , que bom! angá!
bom, afável angaturama
bom, bom dia mocoema
bom, coisa boa marangatu
boníssimo catueté
bonito, belo poranga
coração grande, generoso pyaussu
coração nhyã
coração, fígado pyá
coragem, corajoso ecoeté
corajoso, homem de valor abaeté
flauta mimby toré
flecha Uyba
flecha ,envenenada Uybassy
mão Pó
Mão, dedo da mão, poã
Mão ,direita ecatuaba
Mão ,esquerda assu
Mão, unha poapë
Mão, cinco xe pó
Mãos, e pés, vinte xe pó xe py
Mar, rio profundo paraguassu
Origem, princípio yaba
Origem, semente sy
Orquídea ,espécie de Sumaré
Orvalho yapy
os ,outros, a gente moro
rio, água y
risonho nhearõ
silêncio!, psiu! xi!
silencioso, calado kirirï
sim ,em resposta eë,
simpático obassãia
simples, humilde caapora
temor, medo, receio xikyssijeba
temperar, temperado moee
tempestade ,com ventania toró
tempestade ,marinha yaíba
tempestade, chuva torrencial amanassu
templo, altar camussité
tempo, bom, dia claro cuacatu
ver, avistar epiaca
ver, olhar exá, mae
verão, sol cuarassy
verdade anhé, supi, raré
verdade, verdadeiro upinduara
xará homônimo xará
xícara, asa de, pyssycaba Yára
senhora das águas Uiara zangado
ríspido jeasseia zarolho
estrondear tororó

Exercício: façam pequenas frases, mesmo sem os verbos, que ainda não estudamos...

Sessão 4


Ouvi do índio Terena numa palestra no Museu do Índio, sobre as festividades dos 500 anos do nosso descobrimento:

"CELEBREMOS O FUTURO NO RASTRO DO NOSSO PASSADO "

A cultura do índio era uma cultura oral. O índio somente falava. Não tinha alfabeto, não escrevia, nem lia. Seus conhecimentos, suas tradições, sua sabedoria, seus ensinamentos e principalmente sua língua foram transmitidos através de lendas, contadas por eles, de geração em geração.

As lendas são como luzes, que iluminam as sombras do passado longínquo desses povos primitivos, mas um passado puro e verdadeiro. Estudando-as, lendo-as e compreendendo sua língua, reencontramos o caminho natural e autêntico do ser humano.

Através desses estudos a gente fica sabendo como eles amavam a terra, viviam o amor, o casamento, a maternidade, a alegria das suas festas, o respeito devotado às mulheres e a extremada dedicação aos filhos. O índio era, moralmente, um ser superior. (superior ao europeu no dizer dos jesuítas)

É preciso nunca deixar morrer a cultura dos povos primitivos, porque esses povos estavam muito próximos das verdades primeiras da humanidade. Estes povos foram o que nós autenticamente somos, quando em estado puro. O processo civilizatório, embora inevitável, precisa respeitar e integrar-se ao eterno imaginário dos povos ingênuos, incólume diante da história.

Carlos von Martius considera a língua tupi como o documento mais geral e mais significativo para quem quiser saber como se deve escrever a história do Brasil. E sempre alertou para o perigo de sua extinção, inclusive porque as línguas americanas sofreram. e sofrem um permanente e sério processo de fusão. Portanto, estimular a pesquisa e a difusão da língua tupi nunca será demais.

O General Couto Magalhães, ainda no século passado, numa Sessão do Instituto Histórico e Geográfico apresentou um plano comemorativo do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil, indicando como principal assunto para essa comemoração o estudo das etimologias brasílicas, isto é, do brasilianismo. Já estamos indo para os 500 anos do Descobrimento e muito
pouco se fez. É preciso, portanto, primeiro apreciar o caráter da língua tupi e a sua extensão no Brasil e depois estudar sua evolução através da influência do português e o processo de alteração fonética da língua.

É importante levantar a ponta desse véu de esquecimento que pesa sobre a memória de um povo quase desaparecido e a quem sucedemos no domínio destas terras brasileiras. A língua tupi deve sua notável expansão aos próprios conquistadores europeus, às expedições e às bandeiras que penetraram o sertão brasileiro e principalmente à catequese, que tornou geral esse idioma indígena e o cultivou.

Nossa elite, porém, nossa sociedade moderna e culta , infelizmente, não lhe dá valor e coloca a língua tupi no rol das coisas inúteis, incompreensíveis e enigmáticas. Esqueceram uma língua comprovadamente rica e bela pelos seus cultores do passado. Uma língua que nem sequer desapareceu definitivamente como língua viva no Brasil. Nos nossos vastíssimos sertões, na Amazônia e nos campos do Paraguai ainda vagam numerosos contingentes de representantes
das nações selvagens, dos quais se podem ainda escutar as vozes tupis.

E mais ainda, os nomes tupis estão voltando e existe hoje uma preferência por colocar nomes indígenas, puros, naturais e significativos nos prédios, nas praças e ruas, nas localidades novas, sítios, barcos, lojas, empresas e produtos. Isto é motivo de alegria e toca nosso sentimento patriótico. Um sentimento nacional diferente, integrado e vivido como aquele que temos
pelo nosso esporte e pela nossa música.

A raça indígena que aqui vivia, vencida, perdeu, mas não perdeu tudo. Sua memória vem crescendo exatamente nos nomes tupis dos lugares onde o progresso mais ostenta seus triunfos, mesmo que a dosagem de sangue indígena nas veias de seus descendentes venha diminuindo.

Pela boa acolhida que nosso Curso teve e tem tido dá para sentir o amor da nossa gente ao passado do Brasil e o desejo de conhecer e de demonstrar estima pelo que herdamos dos índios, senhores deste país.

Sessão 5

ESPAÇO PARA CONSULTAS

"Caro Joubert,

Valeu. Gostei. Quer dizer que a palavra Brasil tem origem Tupi? E a tal his(es)tória da madeira côr de brasa?

Exercício 1) Bem vai lá minha tentativa de formar uma frase:

Tan tan Morubixabanheennheennheen abarura pindaiba

Ttradução:
Cabeça dura de chefe tagarela deixa homem mal de pesca.

versão:
FHC boca mole deixa famílias na pior

Exercício 2)

Pyá xe: Meu coração
emimboé:??
(emimboé : som de flauta?)

Um abraço,

Mário"

RESPOSTA:

"Grande Mário, já vi que você será um excelente emimboé.

Primeiro: não, não, eu não quis dizer isso não. a origem da palavra Brasil é portuguesa mesmo. não tem nada de tupi. e exatamente se refere à madeira cor de brasa. brasil, brasa, braseiro é tudo português mesmo. O que eu disse é que alguns estudiosos, principalmente Peregrino Vidal, pseudónimo de Frei Fidélis, consideram umas inscrições rupestres descobertas em várias
regiões do Brasil, como indicativas de que há muitíssimos anos atrás, quando ainda existia o tal continente Atlântida - que dizem que afundou, mas que nos ligava à África e Ásia - os atlântidos, sumérios ou judeus teriam sido os que primeiramente vieram para o nosso país. E na língua
deles, se não me engano, na dos sumérios, be-ra-zil significava "terra dos cantores tostados". Portanto, a palavra Brasil pode também ter esta origem suméria, jadaica ou da atlântida. Mas é uma especulação, ninguém tem certeza. Em tupi, Brasil seria, como já foi dito muitas vezes,
Ybyrapitanga, ybyrá=madeira pitanga=vermelho. Ou Pindorama, Terra das Palmeiras como disseram outros.

Segundo: gostei de sua frase humorísticamente indignada. Quanto à forma você já vai aprender que no tupi, o possessivo é igual ao inglês (você vê que o nosso índio era formidável) o possuidor vem na frente. o morubixaba é que tem a cabeça dura e é tagarela, logo, vem primeiro. então seria:
Morubixaba abatantan nheennheennheen abarura pindaiba. Sua frase é ótima. Claro que tem alguns pequenos senões, porque Rura não seria o verbo mais apropriado. Talvez Rassó (que significa "nos levou", nos conduziu à pindaiba, não é verdade?)teríamos também que aplicar um prefixo designativo do conjunto da tribo, na palavra Aba, homem. Talvez, jandé, que se aplica a
"todos nós" e então a parte final da frase seria: abajandé orérassó pindaiba. (o oré é o nós, de nos levou).ok? em suma: "Morubixaba abatantan nheennheennheen abajandé orérassó pindaiba." e a frase ficaria bem boa!

Terceiro: Pyá xe emimboé = Meus alunos do coração. Como lhe disse acima, o coração, no caso, é o possuidor vem na frente. Como os alunos são meus, xe, também vem na frente de alunos e emimboé é aluno, discípulo. Palavra que o índio, seguramente, nunca usou. deve ter sido inventada pelos jesuítas, você confundiu, e é compreensível, com flauta. que tem o som parecido, mas é toré.

Um abraço e obrigado,
Joubert