Iclas - Instituto de Culturas Lusófonas
Antonio Borges Sampaio


23-11-2022

ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS E O TRABALHO - Ruth C. L. Cardoso e Helena Sampaio


Ruth C. L. Cardoso,antropologa e Helena Sampaio, antropóloga

http://anpocs.com/images/stories/RBCS/26/rbcs26_03.pdf

 

Introdução De um modo geral, os estudos clássicos sobre a juventude, sobretudo aqueles que procuram enfatizar os diferentes modos de ser jovem na sociedade moderna, tomam o trabalho como um indicador privilegiado para identificar, de maneira contrastiva, dois segmentos da juventude: de um lado, o grupo constituído por jovens estudantes; de outro, o formado por jovens trabalhadores. A noção de trabalho, funcionando como um divisor de águas, transforma-se em um marco rígido: o que caracteriza o jovem trabalhador é sua precoce inserção no mercado de trabalho, através do exercício de uma ocupação de pouco prestígio e baixa remuneração. Em uma situação oposta, encontram-se os jovens que, por prolongarem sua formação escolar, - incluindo a formação de nível superior - postergam também sua entrada no mercado de trabalho. Todavia, uma vez inseridos nesse mercado, os jovens diplomados passam a ocupar cargos de prestígio e a obter salários elevados. O que está por trás desse tipo de análise é a idéia de que trabalho e estudo são situações mutuamente excludentes. Nem a formação de nível superior faz parte do universo dos jovens trabalhadores nem o trabalho é cogitado pelos jovens universitários. E verdade que o objetivo de grande parte desses estudos consiste em buscar o que há de mais específico nesses grupos juvenis e, desse modo, as atividades ligadas ao trabalho ou à condição de estudante tornam-se o eixo em torno do qual suas identidades, envolvendo aspectos simbólicos e políticos, são constituídas.(1) É nesse quadro de uma sociologia diferencial da juventude que J. Habermas, L.F. Ch. Oehler e F. Weitz discutem o comportamento político dos estudantes. (2) A especificidade do comportamento político desse segmento explica-se pela forma particular de inserção do grupo na sociedade. Ou seja, é enquanto um não profissional, um não trabalhador, que o estudante tende a orientar seu comportamento político. "A situação do estudante é, antes de mais nada, peculiar. Por um lado, é considerado adulto e, por outro, não tem licença para sê-lo. Tem sido feita, freqüentemente, a observação de que se trata, em certo sentido, de uma situação infantil conservada, apesar do amadurecimento físico e de certos atributos adultos (...). Desligados da casa paterna, mas ainda não incorporados à vida profissional, ainda não atingidos pelas condições específicas de uma profissão, os estudantes aparentam ser dotados do privilégio de poder distanciar-se da concorrência de interesses e ideologias. Os interesses "ligados à formação" dos estudantes são transitórios".(3) Não interessa aqui discutir a tese sustentada pelos autores, de que o desinteresse dos estudantes pela política deve-se à condição de transitoriedade do grupo, a sua situação de aprendizes de profissionais. (4) O que importa notar é que a construção do argumento acentua a oposição entre trabalho e estudo. Em contraste com os estudantes, outros segmentos da juventude envolvidos desde a adolescência em atividades profissionais manifestariam maior interesse pela política. Também deve ser notado que boa parte dessas análises, especialmente aquelas voltadas à caracterização do jovem estudante, teve sua origem em um contexto em que a universidade era muito diferente do que é hoje. Por muito tempo, a função precípua da universidade foi a formação de profissionais (5) recrutados entre os filhos da elite. Uma vez egressos das escolas de nível superior, esses jovens passavam a preencher os quadros políticos e administrativos da sociedade. Nessa época, o trabalho estava excluído da vida do jovem durante o período de aprendizado profissional. Por sua vez, o acesso ao ensino superior, por parte de jovens oriundos de famílias sem recursos e que, portanto, precisavam sustentar-se durante os estudos, era muito raro. Quando acontecia de um ou outro jovem transpor as barreiras da universidade, o estudante não só ganhava notoriedade como passava a encarnar o próprio mito da ideologia liberal. (6) Em suma, sob a perspectiva da sociologia da juventude, universitários e trabalhadores enquanto grupos distintos repetem a divisão da sociedade em classes dicotômicas. As especificidades dos grupos - universitários ou trabalhadores - apenas traduziam a forma pela qual se dava a reprodução da sociedade. A ampliação das camadas médias urbanas, resultado dos processos de industrialização e urbanização, concorreu para alterar esse quadro, impulsionando, inclusive, a transformação da própria universidade. O fenômeno não é específico do Brasil. Ele se verifica, quase simultaneamente, em todos os países que passaram por um rápido processo de terciarização e urbanização e que tiveram ampliados os setores médios da sociedade. Se, antes, a universidade destinava-se, com quase exclusividade, aos jovens das camadas mais altas, depois dessas transformações e também nelas interferindo, um contingente cada vez maior de estudantes chegou ao ensino superior. As mudanças não se limitaram à expansão das matrículas. Novas instituições e carreiras foram criadas para dar conta dessa explosão da demanda por ensino superior. O novo contingente estudantil que chega à universidade já não apresenta a homogeneidade de antigamente. A pressão por ensino superior parte de diferentes segmentos da sociedade: jovens mulheres que já não se satisfazem com o diploma de nível secundário ou de "normalistas", jovens oriundos de famílias sem tradição em ensino superior, pessoas mais velhas e já inseridas no mercado de trabalho em busca de uma melhor qualificação profissional etc.(7) Com isso, a clientela passa a ser extremamente diversificada e a expansão da matrícula não significa apenas aumento quantitativo. Se, conforme vimos, durante um bom período de tempo trabalho e formação superior funcionaram como elementos constitutivos de identidades e destinos de segmentos muito específicos da juventude, atualmente essas situações não são mais tão excludentes, mas chegam, por vezes, a assumir certa complementaridade. Ou seja, as transformações ocorridas no sistema de ensino superior, ainda que somente de leve tenham tocado no problema da democratização da educação no Brasil, (8) acabaram contribuindo para trazer o tema do estudante que trabalha para dentro da universidade. Os estudos realizados da década de 70 em diante trataram logo de reconhecer não só a heterogeneidade do estudantado que estava ingressando na universidade, como também de mostrar que boa parte desses estudantes concilia o trabalho com sua formação superior. Entretanto, tende a ser mantida a idéia dê que trabalho e estudo constituem situações excludentes. Em 1973, Ophelina Rabello, em um estudo sobre o perfil do estudante universitário no Brasil, indicava a presença de um grande contingente de estudantes que trabalhavam. Face a esses dados, a autora questionava a dicotomia existente entre estudo e trabalho: "Passando por cima do fato notório de o estudo constituir por si mesmo uma forma intensiva de trabalho, pergunta-se se estudar e trabalhar traduziriam antinomias insuperáveis ou complementar-se-iam, criando até exigências e reciprocidades altamente vantajosas?"(9) O argumento da autora é o de que existem situações em que estudo e trabalho podem convergir para um esforço de "auto-consistência da personalidade humana do universitário, em termos de auto-superação para a autonomia plena (...); todavia, existem casos em que o estudo aliado ao trabalho poderia "traduzir-se em rotina, em dispersão interior, em mediocridade e desencanto, chegando mesmo à frustração de ambas as condutas do comportamento estudantil, provocando stress, pré-neuroses com a possível perda da substância de ambas as atividades no fenômeno decepcionante da evasão escolar?".(10) Segundo Rabello, a chance que cada uma dessas perspectivas tem de concretizar-se depende de uma vasta gama de implicações contidas na injunção estudo e trabalho. Para a autora, existem basicamente três situações: o jovem que apenas estuda, o que estuda e trabalha e o jovem que estuda e precisa trabalhar como imperativo de sobrevivência. Essas situações "apresentam faces psicológicas e comportamentais diversificadas, carreando para o campus universitário problemas também diversificados, urgentes e de relevância indiscutível".(11) Assim, a autora passa a apresentar o que, em seu entender, constituem os prós e os contras de cada uma delas, sempre tendo em vista o aprendizado, isto é, a "capacitação pessoal e auto-realizadora" (p. 18). Ainda que Rabello procure superar a dicotomia entre estudo e trabalho, mostrando que a conciliação dessas duas atividades pode ser viável – e até desejável –, a concepção de trabalho, na realidade, aparece subordinada ao processo estudoaprendizado. Ou seja, o trabalho só é desejável se integrado à dinâmica do processo educativo, enquanto parte do esforço de "integração entre conhecimento e ação, teoria e prática, informação e formação, democratização e eficácia, desenvolvimento econômico-social e maturidade individual, diálogo e metodologia didática". (12)Quando o trabalho do estudante é motivado por necessidade econômica ou ainda por um anseio de autonomia face à família, Rabello tende a enfatizar o caráter "dilemático" das escolhas. Em outros termos, vê na tentativa de conciliação um conflito permanente de opções. Com essa perspectiva, a autora acaba enfatizando o que ela própria havia questionado. A antinomia trabalho e estudo não mais aparece como insuperável, mas como quase impossível de ser transposta, dadas as recomendações sobre as condições em que a injunção dessas duas atividades poderia se apresentar de forma positiva. O trabalho do estudante tanto prejudica seu desempenho em atividades ligadas ao aprendizado como também reduz seu grau de envolvimento com o ambiente acadêmico. É como se pelo fato de trabalhar, o jovem deixasse de gozar plenamente sua condição de estudante e a experiência do trabalho estivesse deslocada. Os estudantes que trabalham jamais constituem a regra (mesmo que em termos numéricos sejam maioria), mas são a exceção. É o desviante no sentido de estar meio fora - trabalhador - e meio dentro da universidade - estudante. Jamais o trabalho do estudante é tratado enquanto uma opção, mas aparece sempre como compulsório. Ou seja, a inserção precoce do jovem - antes de concluir sua formação superior - no mercado de trabalho sempre aparece vinculada a condicionantes de ordem econômico-social. Volta-se, assim, a remeter o trabalho do jovem a sua origem familiar em termos das classes sociais. O trabalho do estudante é hoje bastante disseminado na universidade e, portanto, já não pode ser apreendido enquanto atividade na contra-mão durante o período de formação superior. Por outro lado, como o público da universidade continua a ser recrutado na classe média, já não podemos restringir a explicação do trabalho do estudante a condicionantes sócio-econômicos. Embora importantes para justificar boa parte.dos. casos de estudantes que trabalham, eles não dão conta de todas as variáveis que envolvem a opção pelo trabalho. A análise que se segue sobre o estudante que trabalha orienta-se no sentido de incorporar novos elementos explicativos. Esses elementos, de um modo genérico, remetem, de um lado, à própria diversidade das formas de organização e funcionamento dos cursos e carreiras e de outro à inserção dos estudantes em uma categoria mais ampla - a juventude -, que dissolve as diferenças entre trabalhadores e estudantes. 

Trabalho e formação superior: opções convergentes Mais de metade dos estudantes pesquisados (13) - 54,6% - trabalha, o que representa 1.216 jovens em um universo de 2.226. Há vinte anos, Rabello já chamava a atenção para o fato de que metade dos universitários - 48,9% - dos cursos diurnos das escolas públicas trabalhavam. Dos estudantes que não se encontravam trabalhando, cerca de 24,5% já haviam trabalhado. (14) Se o trabalho não é um fenômeno inteiramente novo na vida do universitário, o que de fato mudou nestes últimos anos? 

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Ruth Vilaça Correia Leite Cardoso (Araraquara19 de setembro de 1930 — São Paulo24 de junho de 2008) foi uma antropóloga e professora universitária brasileira,[2] esposa de Fernando Henrique Cardoso34.º Presidente do Brasil, e serviu como a primeira-dama do país de 1 de janeiro de 1995 a 1 de janeiro de 2003.

Uma bem-sucedida antropóloga, reconhecida nacional e internacionalmente no mundo acadêmico,[3][4] que se notabilizou por sua intelectualidade, tendo sido a primeira esposa de um presidente a conquistar um diploma universitário.[5]  Como primeira-dama, título que sempre rechaçou,[6] se engajou em políticas sociais como o Programa Comunidade Solidária e, posteriormente, o Comunitas.[7] Na sua posição, impôs gradativamente a modernização do assistencialismo no país, mudando a maneira como era vista a ação social pela sociedade.[8]

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 Helena Sampaio;mestre em Antropologia Social e doutora em Ciência Política