Iclas - Instituto de Culturas Lusófonas
Antonio Borges Sampaio


02-04-2013

Dúvidas sobre a língua portuguesa divulgação por Isac Nunes


Gramatigalhas: Chipre – em Chipre ou
no Chipre?

O leitor Newton Silveira envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Até Migalhas (ou 'o' Migalhas) está escrevendo 'o' Chipre, 'no' Chipre e etc. Mas não se
diz 'o' Portugal ou 'no' Portugal, ou 'na' Creta e etc. O Migalhas está errado?"

1) Ao ver, no dia a dia, um emprego que lhe pareceu gramaticalmente equivocado, um
atento leitor indaga se o correto é dizer e escrever em Chipre ou no Chipre?

2) Em termos técnicos, o que se busca dirimir é se o referido nome próprio designativo
de lugar (tecnicamente denominado topônimo) admite ou não sua especificação por
artigo definido.

3) Desde logo se diga que, nas mais distintas esferas, os nomes próprios designativos
de lugares (i) às vezes se usam com artigo, (ii) às vezes, sem ele, e (iii) às vezes com ou
sem, facultativamente.

4) E também se observe que isso é questão de uso, de tradição, e não de algo que se
defina por alguma norma de Gramática, a qual não tem regra ou norma específica para
resolver o assunto.

5) Num primeiro aspecto, quanto aos nomes de cidades, é mais comum não usar o
artigo: (i) Estive em Brasília; (ii) Estive em São Paulo; (iii) Estive em Paris; (iv) Estive
em Roma; (v) Estive em Nova York. Mas também há casos em que se emprega o artigo:
(i) Estive no Recife; (ii) Estive no Rio de Janeiro; (iii) Estive no Porto. E mesmo os
nomes de cidades que não admitem o artigo acabam por recebê-lo, quando a eles se
segue um termo especificador: (i) Estive na Brasília de Juscelino; (ii) Estive na São
Paulo de Mário de Andrade; (iii) Estive na Paris das luzes; (iv) Estive na Roma dos
césares.

6) Num segundo aspecto, no que tange aos estados brasileiros, alguns se usam
sem o artigo: (i) Estive em São Paulo; (ii) Estive em Minas Gerais; (iii) Estive em
Pernambuco; (iv) Estive em Roraima; (v) Estive em Sergipe. Outros já se empregam
com ele: (i) Estive no Amapá; (ii) Estive no Amazonas; (iii) Estive na Bahia; (iv) Estive
no Piauí; (v) Estive no Rio de Janeiro.

7) Num terceiro aspecto, quanto aos países, alguns não admitem especificação pelo
artigo definido: (i) Estive em Andorra; (ii) Estive em Cuba; (iii) Estive em Israel; (iv)
Estive em Mônaco; (v) Estive em Portugal. Outros são empregados com precedência
de tal artigo: (i) Estive no Brasil; (ii) Estive no Egito; (iii) Estive na Índia; (iv) Estive
na Grécia; (v) Estive no Vaticano. E terceiros há que admitem ou não o artigo,
facultativamente: (i) Estive em Espanha ou Estive na Espanha; (ii) Estive em França
ou Estive na França; (iii) Estive em Inglaterra ou Estive na Inglaterra; (iv) Estive em
Itália ou Estive na Itália.

8) Por fim, quanto aos continentes, um há que obriga o uso do artigo: Estive na
América. Outros permitem duplo emprego: (i) Estive na Europa ou Estive em Europa;
(ii) Estive na África ou Estive em África; (iii) Estive na Ásia ou Estive em Ásia.

9) Quanto ao topônimo Chipre, o mais comum é vê-lo empregado sem o artigo, como
o faz o Código de Redação Interinstitucional do Serviço de Publicações da União
Europeia – obra de normalização das práticas linguísticas elaborada por especialistas
de um comitê diretor interinstitucional – que cunha a expressão oficial "República de
Chipre" como escrita a ser utilizada nos documentos em português, na qual se percebe
com facilidade a ausência do artigo definido.

10) Uma atenta verificação do emprego da mencionada expressão pelos meios de
comunicação, todavia, mostra o topônimo empregado ora sem o artigo, ora com ele.

11) Vejam-se alguns exemplos sem o artigo: (i) "Chipre é uma ilha situada no Mar
Mediterrâneo oriental, ao sul da Turquia..."; (ii) "Chipre planeja isenção de impostos
a cassinos, para reanimar a economia"; (iii) "Chipre quer concluir negociações
com credores nesta semana"; (iv) "Presidente de Chipre nega envolvimento com
desvios de depósitos..."; (v) "FMI pede que Chipre baixe salários e demita dois mil
funcionários...".

12) E também se observem alguns casos com o emprego do artigo: (i) "Confiscos em
depósitos no Chipre alcançam 60%..."; (ii) "O Banco Central do Chipre divulgou uma
lista de perguntas e respostas sobre o nebuloso processo de taxação..."; (iii) "O Chipre
é uma ilha meio estranha: fica bem mais perto do Oriente Médio do que da Europa,
mas é um país europeu"; (iv) "A crise bancária no Chipre despertou certos temores
sobre o turismo e o efeito que terá sobre este setor"; (v) "A Seleção Cipriota de Futebol
representa o Chipre nas competições de futebol da FIFA".

13) Para se ter a ideia da extensão dessa normal duplicidade de emprego – com e sem
a precedência do artigo definido – basta verificar o seguinte: (i) o Dicionário Aurélio
usa sem o artigo, ao referir que cipriota é o "natural ou habitante de Chipre"; (ii) já o
Grande Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o define como o "natural
ou habitante da ilha do Chipre", expressão onde se nota a presença do artigo; (iii) e
a Infopédia, obra virtual da mesma editora por último referida, em critério diverso do
empregado na versão escrita, define cipriota como "referente a Chipre", omitindo,
assim, o artigo.

14) Ante essa duplicidade de entendimentos entre os doutos, além do emprego
tão reiterado de ambas as formas, não parece possível condenar qualquer das duas
construções: (i) Estive em Chipre (correto); (ii) Estive no Chipre (correto).