Iclas - Instituto de Culturas Lusófonas
Antonio Borges Sampaio


17-11-2015

OpinoLogoExisto Aline Frazão


 

ALINE FRAZÃO

Aline Frazão,Luanda,1988, ,cantora e compositora angolana in Rede Angola

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Apesar de tudo, o dia nasceu. O mundo não se acabou. Acordou dolorido, enlutado e confuso. Por detrás do seu traje negro, solene e silencioso, uma t-shirt branca gritava um slogan em forma de hastag. Havia a necessidade de expressar uma solidariedade instantânea, a necessidade vital de dizer quem somos, de que lado estamos. Opino, logo existo. Só que ao contrário dos slogans, ao contrário dos malditos trending topics, a dor não é descartável, de se usar e deitar fora.

Não sei o que é feito do temível Joseph Kony, nas matas do Uganda, nem se a vida dos povos indígenas guarani kaiowá melhorou depois de todos assinarem com o seu nome. O que aconteceu às raparigas que foram arrancadas da escola, em Chibok, na Nigéria, pelas garras do Boko Haram? Com que slogans acompanhámos essa barbárie? Quando foi a última vez que o exército israelita atacou o povo palestino? Quantas crianças mais morreram na praia depois daquela? E Beirute, foi trending topic no Twitter?

Não sou Charlie, nunca fui. Não poderei ser Paris por dezenas de motivos. Nem tampouco quer este texto ser um mero boicote à solidariedade e à empatia, dois recursos escassos no planeta. No entanto, olho com olhos desconfiados para a manipulação que se faz desses sentimentos, que podem ser tão úteis, quer para se chegar à prática de Justiça, quer para se vender jornais, armas ou outros presentes envenenados.

É dessa empatia armadilhada que me procuro defender, cada vez que abro o Facebook ou o jornal e encontro uma nova encenação do apocalipse. Lembro-me, então, que o luto é coisa séria, da ordem do silêncio e da reflexão sobre a perda. O luto dura, por vezes, a vida inteira. Não dura até ao próximo acontecimento.

Silêncio é o que falta na barulheira diária dos televisores que estão no centro das nossas salas de estar. As regras do jogo obrigam-nos a reagir, num impulso honesto e colectivo que gera uma espécie de onda avassaladora que amanhã se faz em espuma na areia, “sin pena ni gloria”. Compromissos rápidos, conversas de café, transformando lentamente eventos graves em banalidades. A repetição desses modelos de marketing, a ocupação mediática passageira das coisas importantes, o desnorte absoluto… tudo isso faz de nós mais frágeis e vulneráveis à violência.

Assusta-me, por um lado, a superficialidade desses slogans. É essa superficialidade que rapidamente se transforma em ódio e mais rapidamente ainda se transforma em nada, em esquecimento. Assusta-me a selectividade dessa empatia, os critérios que fazem com que os sapatos do outro nos sirvam ou não.

Infelizmente, as ondas de solidariedade, aquelas que são reacções apressadas, reproduzem muitas vezes os modelos de desigualdade social, económica, racial ou de género. Sentimos mais o que nos está perto, o familiar. Ou às vezes nem isso, sentimos mais o que nos servem no prato televisivo: frio, cru e amargo, engolindo sem mastigar.

Todas as manhãs, ao romper dos primeiros raios de luz, o mundo parece que vai acabar. Para isso sobram motivos. Mas não acaba, e muito por culpa das pessoas que insistem a cada dia, sem t-shirts nem slogans, sem selfies nem manchetes de jornais. Conheço algumas. Tu também. Elas andam por aí, na tua rua. Só que não saem nas notícias e algumas nem têm televisão.

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