Iclas - Instituto de Culturas Lusófonas
Antonio Borges Sampaio


13-06-2019

O homem que nunca existiu - Carla Romualdo



©Marian

Um amigo recebeu, por motivos pessoais que não vou contar, uma pequena parte da biblioteca de um ilustre bibliófilo. “Pequena” tendo em conta o tamanho total, mas, ainda assim, pouco mais de uma centena de livros. Cheguei a conhecer o bibliófilo, ainda que só de vista. Era um professor aposentado, conhecido pelo humor cáustico, pelo apetite voraz e por jamais sair à rua sem um livro na mão. Troquei com ele pouco mais do que uma saudação fugaz, nos restaurantes do bairro, adiando sempre o dia em que me decidisse a meter conversa. Tanto adiei esse dia que o deixei fugir.

Ajudei o meu amigo a organizar a biblioteca e recebi, em troca, alguns exemplares (não vale a pena esconder o meu oportunismo). Entre as páginas dos livros foram aparecendo consultas de mesa de todos os restaurantes da zona, recortes de jornal sobre os mais diversos temas, algum número de telefone rabiscado, apontamentos nas margens, guardanapos com definições de palavras, escritas com uma letra vagarosa e muito desenhada, postais de viagem. Com tudo isto, foi-se definindo o retrato desse homem que mal conhecíamos, como se pudéssemos recriá-lo a partir destes escassos vestígios da sua passagem pelo mundo.

No final, com os livros ordenados e o montinho de papéis pescados entre as páginas pousados sobre a mesa, achei piada à ideia de que o meu amigo e eu tínhamos feito a operação “Carne Picada” ao contrário. Eu explico.

Em 1943, os Aliados, vitoriosos no norte de África, preparavam-se para invadir a Sicília. Mas esse próximo alvo era tão óbvio que seria de esperar que encontrassem as tropas alemãs e italianas à espera. Por isso, era imperioso ludibriá-las e fazê-las acreditar que o alvo seria outro. E num momento em que os serviços secretos de ambos os lados já se conheciam bem, não seria qualquer artimanha modesta que convenceria o inimigo.

É então que os serviços secretos britânicos decidem pôr em prática uma ideia bizarra. A história é contada no livro «The Man Who Never Was» por um dos responsáveis do plano, o então tenente Ewen Montagu. E se um oficial inglês contasse aos alemães que o plano aliado era invadir a Grécia e a Sardenha, e não a Sicília? E que os Aliados contavam precisamente que os alemães dirigissem a atenção para a Sicília, o alvo mais óbvio, deixando o outro caminho livre? Que características teria de ter este oficial para que fosse credível? A resposta chegou-lhes com absoluta clareza, ainda que a execução não se antecipasse fácil: o oficial teria de estar morto. 

E assim foi. Conseguiu-se um corpo, cedido pela família com a esperança de que pudesse salvar milhares de vidas e com a garantia de que a sua identidade jamais seria revelada. Esse corpo deveria ser libertado perto da costa de Huelva, sabendo-se que as autoridades espanholas dariam conhecimento aos espiões alemães do conteúdo dos documentos que o cadáver transportasse. Criou-se uma identidade para este oficial, com documentos forjados. Um general inglês escreveu uma carta verosímil, dirigida a um oficial norte-americano, com indicações sobre a operação que o outro supostamente conhecia, mas que na verdade estava a ser inteiramente inventada para o destinatário alemão que esperavam vir a ter. Para maior segurança, dizia-se que estava em curso uma operação de embuste para que o inimigo acreditasse que o plano era atacar a Sicília. Caso os alemães viessem a receber informações sobre o plano verdadeiro poderiam achar tratar-se de um ardil concebido especialmente para eles.

O corpo deveria aparecer a boiar no mar depois de um acidente de avião. Levaria presa ao cinto uma maleta, procedimento pouco habitual mas justificável para quem era portador de documentos tão importantes. Mas porque um homem não é apenas um conjunto de farda, insígnias e documento de identidade, era preciso dar-lhe uma história, uma vida, algo que o fizesse humano. Com uma condição importante: a vida inventada desse homem teria de caber-lhe nos bolsos.

E assim, para o oficial que nunca existira foram forjados uma carta do banco em tom ameaçador, porque nada há de mais humano do que ter dívidas, uma carta de um pai muito british, desiludido com a escolha do filho para o casamento próximo, uma foto de uma noiva sorridente e um par de cartas apaixonadas, combinando um encontro para depois da missão secreta, um bilhete de entrada  numa casa de diversão nocturna, da noite anterior ao embarque, porque também é humano querer aproveitar cada momento de uma vida que está em risco.

Todos estas provas de uma existência inventada foram elaboradas com cuidado meticuloso durante semanas. No final, os oficiais que conceberam o plano sentiam que aquele homem que nunca existira lhes era mais próximo do que muita gente que conheciam.

A operação, que recebeu o nome “Carne Picada” não por grosseria ou humor de mau-gosto, mas porque era um dos poucos nomes disponíveis na altura e apenas os nomes pré-aprovados podiam ser usados, foi um sucesso e contribuiu de modo decisivo para a queda de Mussolini.

Um homem fora inventado através de meia dúzia de papéis guardados nos bolsos. E nós, sentados frente aos papéis do nosso benemérito bibliófilo, sentíamos que ficáramos a conhecê-lo um pouco melhor por aquilo que guardava entre os livros. No cimo do montinho, pus um guardanapo de papel do café da esquina, com a letra barroca do nosso homem:

“Utopia: 1. Ideia ou descrição de um país ou de uma sociedade imaginários em que tudo está organizado de uma forma superior e perfeita. 2. Sistema ou plano que parece irrealizável.”

 

O homem que nunca existiu