Iclas - Instituto de Culturas Lusófonas
Antonio Borges Sampaio


16-06-2021

Dom Raimundo e Dom Urbano Francisco G Amorim, Rio de Janeiro


Dom Raimundo e Dom Urbano

 

quarta-feira, 16 de junho de 2021

 

(Do Cancioneiro de Amigo do Pau Ferro – Século ... ?)

(Arquivo Histórico de FGA)

 

Venham todos! Venham todos!

Olhem quem está chegando!

Dom Raimundo, nosso amigo.

Nós dele sempre falando,

Vem curvado, encanecido,

Parece muito cansado.

Estará envelhecido?

 

Dom Raimundo! Meu amigo.

Tanto tempo já passou

Quando de todos sumiste.

Por onde andaste? O que viste?

Conta, conta, dom Raimundo,

Se é que podes falar!

Mas antes vou-te abraçar.

 

Não sei como começar

A história da minha ausência.

Mas como é bom te abraçar.

Os tempos passados contar,

Foram de grande sofrer

Passou ano após ano,

E eu sem te ver, dom Urbano.

 

Uma noite, madrugada,

Não sei o que aconteceu.

Levantei-me, noite escura,

Corri como louco pró cais,

Eu sei que ninguém me viu,

Sem saber o que fazer

Entrei no primeiro navio.

 

Já tinham solt’as amarras

Quando o capitão me viu.

Perguntou-me quem eu era,

Que serviço ali fazia.

Era fim da Primavera.

Não soube dizer meu nome

Nem o que me acontecia.

 

Mandou-me então descansar

E voltar quando pudesse.

Adormeci, a sonhar

Pensando que em casa estivesse.

Mas era um sonho diferente,

Perturbado e agitado,

Estava muito inconsciente.

 

Os dias passavam calmos,

Só mar à volta se via,

Que rumo e destino tinha

Eu nem ideia fazia.

Um dia os céus se zangaram

Um forte trovão se ouviu.

As tempestades chegaram.

 

Durou dias a tormenta

O navio se destroçava.

Sumiam mastros e velas,

A água tudo inundava.

Descansar não se podia,

E se algum sobrevivia

Nem para comer já havia.

 

Procurei o capitão,

Não encontrei mais ninguém.

Sozinho naquele inferno

Só a chorar mais água vem.

Encostei-me lá num canto

Esperar que o mar me levasse

E me afogasse também.

 

Penso ter adormecido.

Senti-me até afogado.

Ao abrir um dia os olhos

O mar era um rio, parado,

O navio uma montanha

De restos de paus, aos molhos.

Nem me sentia acordado.

 

Ali não longe avistei terra

Com gente na praia olhando

Para os destroços. Desfeitos.

Com muito esforço ergui-me

E acenei àquele povo.

Não tardou a que viessem.

Para eu viver, de novo.

 

Era terra nunca vista.

Nem entendi seu falar.

Gente nova, de outras cores.

De tão cansado dormi

E quando voltei a acordar

Olhei à volta, sorri,

Sem saber se era a sonhar.

 

Passou tempo, muito tempo,

De lá não podia sair.

Arranjei quem me abrigasse

Parecia quase feliz

No meio de gente amiga.

Mas só na praia vivia

E nem um barco se via.

 

Sofri muito, envelheci.

Um dia a esperança chegou

Quando ao longe se avistou

Era um navio, que eu vi!

Fiz um fogo que se alastrou.

Ao longe o capitão viu

E o seu navio virou.

 

A terra foi um escaler,

No comando, uma mulher!

Era ela o capitão.

Aos seus pés ajoelhei.

Emocionado chorei

E pedi que me levasse

Sem saber onde aportasse.

 

Abracei a gente amiga

Que me havia recolhido,

E voltei de novo ao mar.

Quantos dias se passaram

Sou incapaz de contar.

Logo que vi terra antiga

Pedi para desembarcar.

 

Já não cheirava Pau Ferro

Desde o dia que partira.

Este cheiro tão gostoso

Que me traz de volta ao lar.

Dom Urbano, meu amigo

Nem quero nisto pensar

Após viver tanto perigo.

 

Dom Raimundo, receber-te

Hoje é um dia de festa.

Venham todos festejar,

Tragam vinho, acendam brasa.

Venha alguém para cantar

Reencontramos um amigo

Que voltou pra sua casa.

 

 

Notas:

1.- URBANO: o nome de um pequeno mercado no Rio de Janeiro

2.- PAU FERRO: nome da Estrada onde se situa o mercado

3.- RAIMUNDO: o encarregado do açougue (talho) do mercado

 

Postado por Francisco Gomes de Amorim