A associação naTerra apresenta amanhã, na Casa Garden, os resultados de seis meses de trabalho em Timor-Leste. Em Baucau, o grupo de cinco jovens que conduz o projecto sustentabilidade Raio de Sol criou uma rede de contactos com organizações parceiras e tem divulgado as técnicas da permacultura entre crianças de jovens. O terreno está preparado. Falta apoio financeiro para erguer o centro educativo sonhado.
Maria Caetano
Em Timor-Leste, a terra está preparada para receber as primeiras sementes. O Raio de Sol, um projecto de promoção de auto-sustentabilidade conduzido por cinco jovens residentes de Macau, cumpriu a sua segunda fase e apresenta, amanhã, na Casa Garden, os resultados alcançados.
Começaram com ambição e alguma inexperiência, admite Patrícia Pereira. Fernando Madeira, André Madeira, Hugo Oliveira e Vera Piteira são os restantes membros da equipa que chegou a Baucau, com vontade de meter mãos ao trabalho e, assim, conseguir marcar a diferença.
“O conceito de desenvolvimento sustentável não é alheio a ninguém. Todas as pessoas estão cientes do que está a ser feito nesse sentido. Agora, as ferramentas que utilizamos é que trazem alguma novidade, bem como o facto de trazermos uma equipa de cinco pessoas que é multifacetada. São pessoas de terreno, ‘fieldworkers’, que é o que falta”, diz Patrícia, já que “maior parte das pessoas internacionais que trabalha em organizações de Timor está em cargos de coordenação de projectos”.
O Raio de Sol, projecto da associação naTerra, trouxe a novidade de “haver uma equipa jovem, com ferramentas diferentes, e disposta a fazer”. A principal ferramenta com que o grupo trabalha é a permacultura, conceito que procura reproduzir em culturas agrícolas os ciclos e a diversidade da natureza, permitindo que a terra seja produtiva de uma forma permanente.
Partir pedra
São estas técnicas e saberes que os cinco procuram passar em Timor. De futuro, com um centro educativo que terá uma zona demonstrativa de permacultura num terreno de três mil metros quadrados cedido pela Diocese de Baucau. Para já, em instalações provisórias.
“Descobrimos que o espaço que nos tinha cedido tinha algumas limitações de uso”, relata Patrícia. O espaço para o futuro centro está ainda “um pouco atrasado”. Mas, ao final de seis meses, o terreno está limpo e pronto para começar a receber o projecto. “Tivemos de ir com uma escavadora tirar cimento. O terreno tinha muita pedra. Não seria simples fazer crescer ali alguma coisa”, conta.
Foi preciso encontrar soluções provisórias, mas o grupo não baixou os braços. “A casa onde estávamos transformou-se na nossa sede. Fizemos uma zona demonstrativa de permacultura, onde recebemos as primeiras actividades”, revela Patrícia. Na sede, o grupo tem conduzido actividades educativas com jovens e crianças, e promovido também contactos regulares com outras organizações que operam em Timor.
“Numa primeira fase, a nossa missão era conseguir perceber no terreno a realidade de Timor, quais eram realmente as necessidades, como é que um grupo como nós era recebido, ou o que já estava a ser feito por outras organizações”, lembra. “Houve espaço para isso. Envolvemo-nos com bastantes organizações locais e fizemos acções de sensibilização.”
A naTerra conta ter em Baucau o Raio de Sol até 2012. A estratégia passa por semear aquilo que mais tarde será fruto para a população local. “Nós somos movidos pela ideia de servir de suporte ao desenvolvimento sustentável de Timor, mas assumimos que só podemos ajudar se permitirmos que as pessoas se apoiem a elas próprias”, afirma Patrícia.
O grupo prevê que a construção do centro de sustentabilidade se prolongue por um ano. Outro ano será necessário para a dinamização do projecto rumo à auto-suficiência. “Queremos ter um grupo de jovens profissionais timorenses que comece a dinamizar o centro. Vai ser feita a capacitação destas pessoas, com as técnicas e conhecimentos da permacultura”, diz a jovem.
As fundações da zona onde vai estar o edifício estão concluídas. “Vai ser um edifício simples, mas suficiente para receber grupos de pessoas para os workshops”. Haverá também uma horta pedagógica, com sistemas exemplificativos de permacultura.
A terra já está preparada para receber as primeiras sementes. Falta, porém, recolher ainda apoio que permita avançar para a nova etapa. “Nesta altura, o que vamos precisar é de fundos. No terreno, já temos colaboração e grupos. Agora precisamos de olhos postos neste projecto para a parte financeira.”
Até aqui, a naTerra recebeu apoio do Governo de Macau e de vários particulares. Mas será necessária uma base sólida que garanta a vida do projecto ao longo dos próximos anos.
Em rede com Macau
O exposição que a associação inaugura amanhã, em parceria com um grupo de artistas locais da Borderless Arts, é uma oportunidade para mostrar trabalho feito e chamar novamente a atenção para o projecto. A mostra “SustainAbility and DiverCity” será inaugurada às 16h, na Casa Garden, junto ao Jardim de Camões.
“A nossa ideia era apresentar os resultados do projecto Raio de Sol, mas não queríamos fazer só isso. Queríamos também ter uma oportunidade de fazer mais algumas coisas aqui, através da nossa associação, e ter a oportunidade de colaborar com grupos novos que possam dar também a sua perspectiva sobre a sustentabilidade”, conta Patrícia.
Parte da exposição integra obras de cinco artistas da Borderless Arts, entre o vídeo e a instalação, com interactividade garantida. Outra parte será a apresentação dos resultados do Raio de Sol, com uma fotocronologia da autoria de Fernando Madeira sobre os seis meses de duração da segunda fase do projecto.
Há também um pequeno vídeo com depoimentos de pessoas que colaboraram com o projecto em Timor. “Uma pequena graça para que em Macau se saiba também o que as pessoas de Timor pensam acerca do nosso projecto e, também, o que eles aprenderam sobre Macau com a presença de um grupo que chega com uma visão de sustentabilidade. Era algo que não era associado de imediato”, afirma.
Alguns vendilhões de Macau foram ainda convidados a estarem presentes no espaço no dia da inauguração. “Foi a forma que encontrámos de dar um pouco de cor à nossa inauguração e criar também a oportunidade para se começar a falar da sustentabilidade ao nível da economia local, muito ligada também à cultura do lugar”, revela.
Com um pé em Timor, e outro em Macau, para os jovens o território tem “potencial” para um desenvolvimento mais sustentável. Por isso, têm a ambição de dar regularidade anual ao evento que acontece amanhã e encontrar mais parceiros na RAEM. “A nossa ideia é, numa fase inicial, ver qual é a adesão de outras organizações, e nossa também. Nós somos uma associação muito jovem. Iniciámos a associação com a ideia de concretizar o projecto Raio de Sol, mas uma vez aberta, e com outros membros que se têm vindo a juntar, existe o interesse de fazer coisas em Macau”, diz Patrícia.
“Antes, estávamos muito dirigidos para o projecto que ia acontecer em Timor. Agora, que o projecto já está a decorrer, pensamos no que pode ser feito em Macau”, revela.
http://pontofinalmacau.wordpress.com/2009/11/27/com-os-pes-na-terra-e-a-cabeca-no-futuro/